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O Projeto UNESCO na Bahia [1]

Antonio Sérgio Alfredo Guimarães

Departamento de Sociologia – USP

            A série de estudos sobre relações raciais que a Unesco patrocinou no Brasil entre 1950 e 1953 foi decisiva para que jovens cientistas sociais brasileiros e estrangeiros refletissem de modo articulado e comparativo sobre a integração e a mobilidade social dos negros na sociedade nacional brasileira. Nomes que despontavam no Brasil - tais como Florestan Fernandes, Thales de Azevedo, L. A. Costa Pinto, Oracy Nogueira, René Ribeiro - ou jovens estudantes norte-americanos - tais como Marvin Harris (1952), Hutchinson (1952) e Ben Zimermann (1952 -, com a cooperação de mestres já estabelecidos - tais como Roger Bastide e Charles Wagley – e o acompanhamento vigilante de outros - tais como Gilberto Freyre e Donald Pierson -, produzissem o mais importante acervo de dados e análises sociológicas sobre o negro brasileiro. O projeto UNESCO, como sabemos, não se deveu inteiramente à iniciativa da UNESCO, nem mesmo ao seu exclusivo financiamento. Tanto a Revista Anhembi, em São Paulo, quanto, na Bahia,  o Programa de Pesquisas Sociais Estado da Bahia - Columbia University foram igualmente responsáveis pelo financiamento e, na verdade, já haviam dado início aos estudos antes que a UNESCO decidisse realizá-los. Do mesmo modo, ainda que sem se responsabilizar pelo financiamento, o Teatro Experimental do Negro e o I Congresso Nacional do Negro, através de seus principais intelectuais – como Guerreiro Ramos, Abdias do Nascimento e Edison Carneiro – influenciaram, ainda que indiretamente, seja o desenho do projeto, seja a sua realização no Rio de Janeiro, seja, principalmente, o modo como tais estudos foram recebidos e divulgados no Brasil.

            Tal ciclo de estudos não apenas projetou internacionalmente jovens pesquisadores (que em sua maioria não tinham antes estudado relações raciais), como procedeu também a dois outros importantes feitos: primeiro, ampliou o foco espacial dos estudos de relações raciais, incluindo o mundo rural brasileiro do norte e nordeste, e transformando o sudeste e o sul em áreas privilegiadas desses estudos; segundo, contrapôs às autoridades monopolísticas de Gilberto Freyre e Arthur Ramos e, secundariamente, de Donald Pierson, novas autoridades concorrentes, como Bastide,  Florestan, Thales, Oracy e René Ribeiro. A melhor síntese desse projeto está em dizer, como o fez o próprio Thales de Azevedo, dezoito anos depois, que a constatação da existência do preconceito racial no Brasil fora uma das suas mais importantes descobertas. Vale a pena citar o trecho integral:

“Aí [na sua monografia Elites de cor] se verifica que, na mais mestiçada população urbana do país, apesar de um ideal fusionista e integracionista, o oposto moral do racismo, atua um preconceito étnico cautelosamente disfarçado pela ideologia da não-discriminação; outra verificação é a da mobilidade individual a despeito da cor” (Azevedo 1969: 16)

De fato, é lendo os trabalhos realizados na Bahia, especialmente o de Thales, que melhor se pode apreciar a tensão gerada pelos deslocamentos regionais e interpretativos ensejados pelo chamado projeto UNESCO. Sem terem dado uma resposta unívoca e peremptoriamente positiva à pergunta: “existe preconceito racial no Brasil?”, que polemizasse com a literatura sociológica já produzida por Pierson (1971) ou Frazier (1942), e sem rever a história social já estabelecida por Freyre (1933, 1936), como procuraram fazer os estudos UNESCO em São Paulo; na Bahia, os estudos dirigidos por Wagley (1952) e Azevedo (1953), exploraram e aprofundaram pistas levantadas por Freyre, Ramos (1971), Frazier (1942), Herskovits (1942), Pierson (1971), Park (1971), e outros pioneiros, para avançar na compreensão do que era “cor” e o que poderia ser entendido como “preconceito de cor”.

Nessa comunicação procurarei estabelecer os seguintes pontos: primeiro, que os estudos UNESCO não podem ser vistos como os primeiros estudos de relações raciais brasileiros, pioneirismo metodológico e teórico que cabe ao estudo de Donald Pierson, orientado por Robert Park, havia uma década; segundo, que antes se tratava de seguir pistas e verificar hipóteses levantadas pelas gerações anteriores. Ademais, parto de um pressuposto que era totalmente transparente na Bahia ou Pernambuco daquela época: não haveria tempo hábil ou expertise disponível para proceder à revisão da história social dessa região, estabelecida por Freyre havia duas décadas.

Donald Pierson, o pioneiro

            Pretos e Brancos na Bahia, publicado em português em 1945, foi de fato o raio-em-céu-azul que veio alterar os hábitos metodológicos e teóricos da nascente antropologia cultural brasileira. Arthur Ramos, que escreve a introdução à edição brasileira, nota com precisão:

“É verdade que, desta vez, o plano de trabalho de Pierson era inteiramente novo entre nós. Embora muita coisa estivesse escrita sobre relações de raça, o assunto foi mais estudado no plano da história social do que no da pesquisa regional, num dado tipo de sociedade e na época atual. De outro lado, o ponto de vista agora abordado era inteiramente diverso dos objetivos propriamente antropológicos dessa já hoje extensa fileira de nomes, que vêm desde Nina Rodrigues.” (Pierson 1971:68)

Essa mudança fora gestada nos Estados Unidos desde os anos 1910, quando os primeiros cientistas sociais negros americanos, seguindo Franz Boas, desfizeram-se da armadilha da definição biológica de “raça”, que explicava a condição social dos negros a partir da hipótese de sua inferioridade inata, para realçarem, analisarem e discutirem a heterogeneidade social, política e cultural do meio negro, concentrando-se na hipótese de que a discriminação racial era o principal obstáculo paro o progresso social, político e cultural dos negros naquele país (Williams Jr. 1996). A outra vertente boasiana, aquela desenvolvida por Herskovits em seus estudos de aculturação, fora paulatinamente sendo marginalizada pela sociologia que faziam os intelectuais negros, mais interessados em realçar as oportunidades e as condições de vida como determinantes da situação social e das atitudes pessoais e coletivas, em detrimento de fenômenos culturais.

De fato, para esses intelectuais, entre os quais podemos citar Du Bois, Monroe Work, Brooker Washington, Alain Locke, entre outros, o transpasse do paradigma de raça em Boas significava afirmar que as diferenças raciais (biológicas), ainda que não inteiramente negadas, não poderiam ser responsabilizadas (a) pela falta de integração do negro nas sociedades americanas; (b) pelo seu desempenho inferior em relação ao branco. Os fatores explicativos mais importantes para ambos os fenômenos seriam, ao contrário: o preconceito, a discriminação e a segregação raciais. A explicação pela “cultura”, que segundo Herskovits poderia ser um fator condicionante das dificuldades da integração, adquirira, nos anos 1940, um caráter “conservador” que só foi ultrapassado depois dos 1960, quando a política de identidade passou a ser o principal foco do ativismo negro.

A agenda de pesquisa que Pierson trouxe para a Bahia em 1935, como aluno de doutorado em Chicago, sob a orientação de Robert Park, incorporava já a preocupação principal com a integração e a mobilidade social dos negros, a hipótese de que o preconceito racial seria o principal obstáculo a essa integração, em detrimento dos aspectos de aculturação, conforme os ensinamentos de Park, que teorizou o ciclo da assimilação social, e a teorização peculiar de Herbert Blumer sobre o preconceito racial.

Quando Park introduz o livro de Pierson ao público americano é muito claro em apontar o significado do Brasil como laboratório de relações raciais:

“Fato que torna interessante a "situação racial" brasileira, é que tendo uma população de côr proporcionalmente maior que a dos Estados Unidos, o Brasil não tem "problema racial". Pelo menos é o que se pode inferir das informações casuais e aparentemente desinteressadas de visitantes desse país que indagaram sobre o assunto [referindo-se a James Byrce e Theodore Roosevelt]. (Park 1971: 82)

“Esta tendência [“do Brasil absorver a gente de cor”], entretanto, não é simplesmente fato histórico e biológico; é antes manifestação de uma ideologia (policy) nacional, na medida em que se pode dizer que o Brasil tem uma ideologia relativa a gente de cor.” (Park 1971: 82-3) 

            Todos sabem, entretanto, que Pierson já encontrou aqui, entre os acadêmicos brasileiros, uma história social do negro, desenvolvida por Gilberto Freyre, que fizera da miscigenação e da ascensão social dos mulatos as pedras fundamentais de sua compreensão da sociedade brasileira. Ou seja, para ser mais claro, eram fatos estabelecidos, já nos 1935, pelo menos entre os intelectuais modernistas e regionalistas, que (a) o Brasil nunca conhecera o ódio entre raças, ou seja o “preconceito racial”;  (b) as linhas de classe não eram rigidamente definidas a partir da cor; (c) os mestiços se incorporavam lenta mais progressivamente à sociedade e à cultura nacionais; (d) os negros e os africanismos tendiam paulatinamente a desaparecer, dando lugar a um tipo físico e a uma cultura propriamente brasileiros.

            O quanto essas crenças proviam mais de desejos que de realidades, refletindo mais ideais do que práticas, notou-o também Park, na mesma introdução, denotando sem dúvida a influência que Radcliffe-Brown já exercia em Chicago (Stocking 1986):

“Na realidade, a atitude do povo brasileiro em relação ao "problema racial", no que diz respeito ao negro, parece ser, no seu todo, mais acadêmica que pragmática e real. Há certo interesse etnológico pelas sobrevivências dos cultos afro-brasileiros, os chamados candomblés, que parecem existir em número extraordinário especialmente nas cidades do Salvador e Recife e suas vizinhanças. [...] Uma vez que a maior parte destes candomblés representam formas em pleno funcionamento de práticas religiosas africanas (embora evidentemente em processo de assimilação ao ritual e mitologia do catolicismo local), talvez não devam ser classificados como sobrevivências.” (Park 1971: 84)

           

            As palavras de Park serão desdobradas, um pouco mais tarde, por um outro ex-aluno seu, Franklin Frazier, e darão origem à polêmica com Herskovits em torno do caráter da família negra na Bahia. O fato é que Arthur Ramos tinha razão: as idéias de Chicago chegaram à Bahia depois das de Evanston e, se Herskovits pode ser incorporado facilmente à tradição inaugurada por Nina Rodrigues, Pierson, no que pese ter sido antecedido pela história social de Freyre, iniciava uma nova sociologia que apenas em 1950 seria retomada por Thales de Azevedo.

            Seria, todavia, enganoso se eu não apontasse o quanto da antiga problemática permanecia no novo método e nas novas teorias de Pierson, presentes principalmente na idéia de raça (que permitia que os mestiços fossem às vezes subrepticiamente tratados como negros) e na manutenção de explicações genéticas. Ora, o método genético de explicação, que se confunde com o de estabelecimento de verdades fundacionais, tem em Pierson três fundamentos: (1) a existência de raças diferentes; (2) a mistura racial, ou miscigenação; (3) a mobilidade social de mestiços. Pierson atribui esta última à inexistência do preconceito de raça, que explicaria também, tanto a miscigenação, quanto a correspondente ascensão social dos mestiços. Restava, portanto, para entender os preconceitos de fato existentes, aquilo que ele chamou  preconceito de classe. Nem mesmo a rígida estrutura de desigualdades na distribuição de riquezas entre brancos e negros pode contrariar o método genético, que vê as diferenças como resultado de pontos de partida diferentes e trata os mestiços socialmente embranquecidos como negros que ascenderam socialmente.

            A esse respeito, há que se fazer justiça a Arthur Ramos, quando, introduzindo o livro de Pierson ao público brasileiro, em 1945, avança a hipótese de trabalho de que Thales se valerá anos depois:

“Estas conclusões podem ser comparadas com as do professor negro Frazier, [...] que também nos visitou recentemente, e que verificou a existência de um "preconceito de cor" que deveria ser distinto do "preconceito de raça". É um assunto aberto à discussão se este preconceito ligado à cor negra mais carregada coincide ou não com o status social e econômico mais baixo, o que as pesquisas de Pierson nos levam a admitir.” (Ramos 1971:96)

Em outras palavras: se não existia preconceito racial entre nós (tal como Blumer (1939) o definia), existiria preconceito de cor (tal como definido por Frazier (1942))? Ou teríamos apenas preconceito de classe, como queria Pierson?

Quanto a Park, escrevendo em 1942, em plena guerra, ele já antecipa a agenda que Arthur Ramos retomará em 1949, ao assumir o Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. Na Introdução já citada, Park pensa na nova ordem mundial que surgiria depois da guerra e vê as ciências sociais como responsáveis por prover a base empírica, científica e racional, sobre a qual se deveria edificar uma nova moral de convivência entre povos, raças e culturas diferentes; reconhecendo no Brasil um caso muito interessante a ser estudado pois aqui não existiria um “problema racial” propriamente dito, apesar da grande presença de descendentes de africanos:

“Ao sugerir a possibilidade de estudos futuros em seguida a este, estou levando em conta o seguinte: 1) que o Brasil é um dos mais importantes "melting-pots" de raças e culturas em todo o mundo, onde a miscigenação e aculturação estão se processando;  2) que o estudo comparativo dos problemas de raça e cultura provavelmente assumirá uma importância especial nesta época, em que a estrutura da ordem mundial parece estar se desintegrando devido à dissolução das distâncias físicas e sociais, sobre as quais esta ordem parece repousar. Num mundo que está atualmente em guerra, porém buscando tenazmente a paz, tornou-se evidente apenas ser possível erigir-se uma ordem política estável sobre uma ordem moral que não se confine às fronteiras dos estados nacionais.” (Park 1971: 82)

Charles Wagley e o Projeto da UNESCO

            A monografia escrita por Thales para o projeto UNESCO teve, porém, um outro predecessor além de Brancos e Pretos na Bahia. Trata-se da coletânea de ensaios, resultantes de pesquisas de campo etnográficas, realizadas por Marvin Harris, W.H. Hutchinson e Ben Zimermann, na Chapada Diamantina, no Recôncavo e no sertão da Bahia, orientadas e publicadas sob a organização de Charles Wagley em Race et  classe dans le Brésil rural (Paris, UNESCO, 1952), estudos que, realizados sob o guarda-chuva do Convênio Estado da Bahia – Universidade de Columbia, foram eles também encomendados pela UNESCO, segundo nos ensina Maria Brandão (1996: 16).

            A qualidade dessas monografias e a agudeza da observação etnográfica de seus autores documentam as tensões raciais e a sutileza dos mecanismos discriminatórios em jogo nessas comunidades, apesar de que, no plano da teoria e da política social, as conclusões de Charles Wagley não se afastem em muito das de Donald Pierson. Diz ele:

“Concluindo, convém sublinhar que nosso estudo das relações entre grupos raciais e entre classes sociais nas regiões rurais do Brasil setentrional confirma as teorias de Donald Pierson a respeito das relações raciais em Salvador.”(Wagley 1952: 162)

“Assim, as conclusões de Pierson, concernentes essencialmente à cidade de Salvador, no estado da Bahia, se aplicam de uma maneira geral ao conjunto da região rural da região norte do Brasil” (Wagley 1952: 163)

Tais conclusões, no entanto, não conseguem esconder o grande refinamento conceitual que começa a ser elaborado pela antropologia social feita no Brasil para compreender exatamente o significado da noção nativa de cor, superando, seja a visão dicotômica de Frazier (cor versus raça), seja a dicotomia de Pierson (raça versus classe). Tanto é assim que Wagley já começa a teorizar sobre o que são as classes sociais, enquanto categoria nativa:

 “Qualquer um que exerce uma profissão não-manual, que fez os estudos secundários, que descende de uma família honrada e conhecida e que é branco poderá, por exemplo, ser colocado na classe superior local, mesmo se é pobre. Um negro deverá preencher todas as outras condições requeridas para ser admitido nesta classe a despeito de seu tipo físico.” (Wagley 1952:159)

Do mesmo modo, o preconceito racial começa a ser percebido por baixo da densa camada de etiquetas sociais:

“Todavia, existe uma marcada preferência por certos tipos raciais, acompanhada às vezes por uma atitude de desprezo em relação a outros tipos, o que denota a existência de um preconceito racial em todos os níveis da sociedade rural brasileira. A pouca importância que se dá a raça na classe inferior indica contudo que este preconceito é, por assim dizer, latente e não se manifesta senão em caso de competição pelo acesso a um escalão superior da hierarquia social local.” (Wagley 1952: 159)

Para Wagley, o Brasil se moveria, no futuro, entre dois cenários possíveis:

1.      “O desenvolvimento econômico do Brasil … deverá permitir uma elevação generalizada do nível de vida de amplos setores da população beneficiados pelo acesso à instrução. Deste modo, as classes inferiores da sociedade, compostas em sua maioria por pessoas de cor, tenderão cada vez mais a se confundir com a classe média. A raça não constituindo um obstáculo intransponível ao progresso e cada qual se beneficiando da melhoria de oportunidades para ascender na hierarquia social, o contraste que existe do ponto de vista social e econômico entre as classes inferiores, onde predominam as pessoas de cor, e a classe superior, essencialmente composta de brancos, deverá acabar por desaparecer.’(Wagley 1952: 164-5)

2.      “Pôde-se observar que, à medida que mais negros e mestiços melhoram sua condição econômica e adquirem instrução, a posição da classe superior branca se acha mais diretamente ameaçada. Por reação, o critério racial tende a ganhar importância no plano social; ao mesmo tempo, os preconceitos, as tensões entre grupos raciais e as medidas discriminatórias podem se agravar. Enfim, à medida que os laços industriais e comerciais entre o Brasil e o Ocidente se estreitam e que o país melhora sua infra-estrutura, as ideologias das nações mais avançadas do ponto de vista científico e técnico ganham terreno aqui. Emprestando a outras culturas os instrumentos, as técnicas e as teorias úteis, o Brasil se arrisca a tomar emprestado também as atitudes, as idéias e as invenções adventícias. Os observadores, tanto brasileiros quanto estrangeiros, têm a impressão de que ao mesmo tempo que introduz seus processos industriais e técnicos o Ocidente introduz no Brasil suas atitudes e suas teorias racistas.” (Wagley 1952: 165)

Sente-se nitidamente nas palavras de Wagley alguns compromissos acadêmicos incontornáveis ou influências duradouras, como a que se exprime na postura freyriana, que ele faz sua, de localizar na antiga cultura colonial luso-brasileira, particularmente viva na zona açucareira do Nordeste, os valores positivos de nossa civilização e representar a modernização como um risco constante de dissolução, alquebramento e contaminação (Needell 1995).

Thales de Azevedo e o Projeto UNESCO

Pode-se imaginar agora, claramente, o grande desafio de Thales ao produzir uma monografia original que dialogava com a história social de Gilberto Freyre, a sociologia de Donald Pierson e a antropologia social de Charles Wagley, seu parceiro no Convênio Bahia-Columbia.

A influência de Freyre já se manifestara no Povoamento da Cidade do Salvador, de 1949, através da importância explicativa de que ele dotara a miscigenação e a ascensão social dos mestiços enquanto gênese da democracia racial brasileira. Caberia agora prestar contas da herança de Pierson.

Mas o maior desafio de Thales, como o dos demais participantes do projeto UNESCO, era posicionar-se enquanto homem de ciência, de modo crítico, diante da “ideologia brasileira de relações raciais”, como bem definira Robert Park. Tal ideologia ganhara, no pós-guerra, o consenso doméstico de intelectuais e ativistas anti-racistas e já adquirira, naqueles anos de 1950, através do ativismo internacional de figuras como Gilberto Freyre e Arthur Ramos, projeção e reconhecimento mundiais, sob o nome de democracia racial, como alternativa de política de combate ao racismo. Como salientou Marcos Maio (1997) era aliás esta a principal motivação do Projeto UNESCO.

Talvez o melhor índice do dilema em que Thales se viu envolvido seja justamente a grande evolução do seu pensamento entre a publicação da versão francesa de 1953, pela UNESCO, e o seu texto teórico mais completo sobre as relações raciais na Bahia – Classes sociais e grupos de prestígio – que, segundo nos confidencia Maria Brandão (1996: 17), fora esboçado, juntamente com dois textos de caráter histórico, no mesmo ano de As Elites de Cor, e excluído da edição final por receio de ser infiel ao espírito da demanda de Métraux. Já falei sobre isso há alguns anos atrás e não vou me repetir (Guimarães 1999: 127-148) . Direi apenas que foi em Classes sociais e grupos de prestígio que Thales refletiu teoricamente sobre os seus achados de campo de 1952, superando o esquema piersoniano. Prefiro, para encerrar, apontar uma qualidade exemplar de As Elites: o seu caráter rigidamente etnográfico e descritivo.

Contou Thales a Mariza Correia, em depoimento ao projeto “História da Antropologia no Brasil (1930-1960)”, na UNICAMP, em 1984, gravado em vídeo, que Alfred Métraux, retornado à Bahia um ano depois de lhe ter encomendado a monografia, e examinando o seu esquema de redação e as primeiras 40 páginas escritas, lhe perguntara a título de comentário; “mas será que brasileiro só sabe escrever história?”. Esta orientação de Métraux certamente terá afastado Thales do método genético, forçando-o a manter-se no terreno da etnografia, mas não o obrigava ou desobrigava a arriscar explicações teóricas, que teriam forçosamente de ser muito refinadas e trabalhosas se ele quisesse se opor a Freyre ou a Pierson.

Na verdade, a etnografia de Thales, em minha opinião, tem como objetivo principal averiguar a hipótese já esboçada por Arthur Ramos, a partir das leituras de Pierson, Park e Frazier: não sendo racial, no sentido que lhe emprestava Blumer, seria o preconceito encontrado na Bahia em relação aos pretos e mulatos um preconceito de cor, ou seria mesmo, como teorizara Pierson um preconceito de classe? Para responder a esta pergunta, numa sociedade abertamente excludente e estratificada por classes e grupos de prestígio, e sem ter a ilusão piersoniana de que os socialmente brancos eram negros bem sucedidos, Thales decide-se por um estudo da ascensão social de homens de cor na Bahia dos anos 1950. Só um estudo deste tipo lhe permitiria observar, a um só tempo, as eventuais barreiras para a ascensão social dos pretos e mulatos, ou seja a sua trajetória familiar ou pessoal, os seus instrumentos, mecanismos e instituições de mobilidade vertical, assim como o padrão das relações sociais entre brancos e negros e as suas atitudes, uma vez inseridos nas classes altas.

Evitando, na maior parte das vezes, tirar conclusões que seu material empírico não lhe permitiria sustentar, Thales esmera-se na arte de relativizar as opiniões de seus informantes, seja a partir de suas próprias observações, seja a partir das opiniões contrárias de outros informantes. Sua conclusão sobre a existência do preconceito de cor na Bahia é exemplar a esse respeito:

“A posição dos que negam inteiramente o preconceito é a de quem formula um padrão ideal de relações, inspirado "no desejo que não houvesse (o problema), ou no vão intento de contribuir para que a sociedade o esqueça" [Rômulo Almeida]. Os que exageram as proporções da questão poderiam ser personalidades inadaptadas, o que não ocorre sempre; essa exageração é um poderoso meio para chamar atenção para um problema que se supõe inexistente ou sem importância e funciona também como uma forma de agressão contra o grupo discriminante.” (Azevedo 1996: 154-5) 

Para que conclusão mais atual, nos dias que correm, quando discutimos a adoção de cotas para negros em universidades públicas?


Referências bibliográficas

Azevedo, Thales de. 1996. As Elites de Cor numa Cidade Brasileira. Um estudo de ascensão social & Classes Sociais e Grupos de Prestígio, Salvador, EDUFBA.

Blumer, Herbert. 1939. “The nature of racial prejudice”, Social Process in Hawaii, v, 11-20.

Brandão, Maria. 1996. “Thales de Azevedo e o Ciclo de Estudos da Unesco sobre ‘Relações Raciais’ no Brasil”, in Thales de Azevedo, As Elites de Cor numa Cidade Brasileira. Um estudo de ascensão social & Classes Sociais e Grupos de Prestígio, Salvador, EDUFBA, 1996, pp. 11-22.

Frazier, Franklin. 1942. "Some Aspects for Race Relations in Brazil", Phylon-Review of Race and Culture, III, 3.

Freyre, Gilberto. 1933. Casa Grande e Senzala, Rio, Schmidt Editor.

Freyre, Gilberto. 1936. Sobrados e Mucambos, Rio,  Editora Nacional.

Guimarães, Antonio Sérgio A. 1999. Racismo e Anti-Racismo no Brasil, São Paulo, Editora 34.

Harris, Marvin. "Les Relations Raciales à Minas Velha Communauté Rurale de la Région Montagneuse du Brésil Central" in C. Wagley, Races et Classes dans le Brésil Rural, Paris, UNESCO, 1952.

Herskovits, M.J. Pesquisas Etnológicas na Bahia, Salvador, Museu do Estado da Bahia, 1942.

Hutchinson, H.W. "Les Relations Raciales dans une Communauté Rurale du Reconcavo (État de Bahia)" in C. Wagley, Races et Classes dans le Brésil Rurale, 1952.

Maio, Marcos Chor. 1997. A História do Projeto Unesco. Estudos Raciais e Ciências Sociais no Brasil, Rio de Janeiro, IUPERJ, tese doutorado.

Needell, Jefrey D. 1995. “Identity, Race. Gender, and Modernity in the Origins of Gilberto Freyre’s Ouevre”, American Historical Review, volume 100, no. 1, February 1995., pp. 51-77.

Park, Robert. 1971 . “Introdução à 1ª. Edição americana”, Donald Pierson, Brancos e Pretos na Bahia, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1971, pp. 79-86.

Pierson, Donald. 1971.  Brancos e Pretos na Bahia, São Paulo, Cia. Editora Nacional.

Ramos, Arthur. 1971. “Introdução à 1ª. Edição brasileira”, Donald Pierson, Brancos e Pretos na Bahia, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1971, pp. 67-70

Stocking, George W. (Editor). 1986. Malinowski, Rivers, Benedict, and others: essays on culture and personality. Jr. Madison, Wis. : University of Wisconsin Press

Wagley, Charles. 1952. Race et classe dans le Brésil rural, Paris, UNESCO.

Williams Jr., Vernon J. 1996. Rethinking Race. Franz Boas and His Contemporaries, Lexington, The University Press of Kentucky.

Zimermann, B. "Les Relations Raciales dans la Région Aride du Sertão", in Wagley, Races et Classes dans le Brésil Rural, Paris, UNESCO, 1952.



[1] Comunicação ao Colóquio Internacional “O projeto Unesco no Brasil: uma volta crítica ao campo 50 anos depois”, Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, Salvador, Bahia, entre 12 e 14 de julho de 2004.