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Carlo Castaldi: o reencontro de um naufragado
com a Antroplogia Apresentado e comentado por Carlos
Caroso,
Resumo Entre os anos de 1953 e 1954, Carlo
Castaldi, aluno de Charles Wagley na University
of Columbia, realizou seu estudo de campo para a tese de doutorado intitulada
Religious figures and cults in the
Recôncavo, Bahia, Brasil. Os locais onde fez sua pesquisa situam-se
na Ilha de Itaparica, teve como informantes três líderes religiosos, que
tinham em comum as religiosidades católica e afro-brasileira e a prática
de atividades terapêuticas, sendo os três considerados como dotados de grande
poder de operar curas e milagres.
Finalizado seu trabalho de campo em Itaparica, transferiu-se para
o Rio de Janeiro no início de 1955, e, lá chegando, escreveu a versão preliminar
de sua tese nos três primeiros meses subseqüentes, encaminhando-a para seu
orientador. Nesse ínterim, envolveu-se com o estudo de um episódio de fanatismo
religioso, do qual resultou um dos seus dois artigos publicados no Brasil,
o outro foi sobre os milagres atribuídos à imagem de um santo católico em
Salvador.
Castaldi permaneceu no Brasil durante cinco anos, período em que
realizou vários trabalhos junto a órgãos governamentais. Retornou em seguida
à Itália para engajar-se como consultor em uma empresa, decisão que o levaria
a distanciar-se da Antropologia acadêmica, não mais retornando a University of Columbia para rever a versão preliminar da sua tese
de doutorado, conforme lhe fora recomendado por Charles Wagley.
Decorridos 38 anos desde que deixara o Brasil, buscou estabelecer
contato com o campo onde outrora trabalhara. Localizou-me através de e-mail,
para, a seguir, encaminhar-me uma carta, hoje disponível na INTERNET, na qual falava sobre sua experiência
na Bahia e confessava sentir-se “um naufragado que lança uma garrafa ao mar sem saber o que virá”. Ele
buscava obter notícias daqueles que estudara em campo, pessoas que, segundo
ele, lhe foram muito caras. No ano seguinte,
nos encontramos em Roma, ocasião em que espontaneamente entregou-me a versão
original de sua tese, escrita em língua inglesa, solicitando-me que fizesse
uso acadêmico de seu material, “se este tivesse algum valor!”. Repetidamente
planejamos sua vinda à Bahia, que foi adiada em função de dificuldades mútuas.
Nossa última comunicação se deu em outubro de 2001, quando marcamos sua
viagem para o mesmo mês do ano de 2002. Na época aprazada as várias tentativas
de contato ficaram sem resposta. Em novembro último tomei conhecimento de
que ele falecera em agosto do ano em que, enfim, re-encontraria seus “nativos”.
Pela importância do seu trabalho, que nunca foi levado a público
e em atenção ao seu pedido, atualmente dedico-me a realizar a tradução comentada
do seu texto original com vistas a publicá-lo. Seu material passou a fazer
parte de meu amplo projeto de pesquisa na UFBA, que visa a estudar os taumaturgos
e terapeutas populares exponenciais da tradição religiosa, objeto a que
tenho me dedicado nestes últimos anos.
Apresentação
Carlo Castaldi é um dos menos conhecidos
e mencionados participantes do acordo de cooperação entre a University of
Columbia e Universidade Federal da Bahia, cujos principais nomes da Bahia
foram os de Charles Wagley, Marvin Harris, Bill Hutchinson e Ben Zimmerman.
Sua trajetória difere da dos demais participantes, uma vez realizou sua
pesquisa sobre uma temática diferente dos demais, uma vez que permaneceu
no Brasil realizando outros estudos pelos quatro anos seguintes, nunca finalizou
sua tese de doutorado sobre o estudo que realizara na ilha de Itaparica
nem desenvolveu carreira acadêmico-científica.
O acaso nos colocou em contato em fins de 1996, quando recebi uma
mensagem sua através da INTERNET. Consultava-me se poderia fazer algumas
perguntas sobre a Bahia, tendo eu lhe respondido afirmativamente. O nome
não era totalmente estranho, levando-me a acreditar que fosse alguém relacionado
à academia, mas não consegui fazer nenhuma relação imediata. Tratei-o de
Professor Castaldi, tendo ele replicado que infelizmente não se tornara
professor, pois a vida o conduzira por outros caminhos e nunca terminara
seu doutoramento na University of Columbia. Na carta que me enviou a seguir,
que ainda hoje se encontra disponível na INTERNET, relatava seu trabalho
de campo na Ilha de Itaparica em inícios da década de um mil novecentos
e cinqüenta, solicitava informações sobre alguns dos seus antigos interlocutores
de campo, finalizando por dizer-se “um naufragado
que lança uma garrafa ao mar sem saber o que virá”, idéia que retomamos
no título deste texto. Infelizmente
eu não conhecia nenhuma das pessoas mencionadas por ele, sendo vãs as consultas
que fiz a colegas que tinham mais familiaridade ou trabalhado na ilha de
Itaparica. Só mais tarde em conversa com Cláudio Pereira ele lembrou ser
Castaldi o autor de “A Aparição do Demônio no Catulé”, que eu conhecia apenas
de referências bibliográficas. O que me levou a recordar ter ouvido do Professor
Thales de Azevêdo a menção a um italiano que estudara em uma das ilhas da
Baia de Todos os Santos, tendo depois realizado aquele estudo em Minas Gerais,
porém nesta oportunidade ele disse que não mais soubera o que lhe acontecera. Mantivemos
contato por e-mail até que no ano seguinte nos encontramos em Roma, num
momento em que eu iria a Perúgia atendendo convite de Tullio Seppilli para
participar de atividades da pesquisa comum que realizávamos. Ao retornar
a Roma, tivemos nosso segundo encontro, ocasião em que Castaldi espontaneamente
entregou-me a versão original de sua tese, escrita em língua inglesa, solicitando-me
que fizesse uso acadêmico de seu material, “se este tivesse algum valor!”.
Retornando à Bahia tomei conhecimento do seu texto que me pareceu de alta
qualidade etnográfica, escrito sob influência dos estudos de comunidade
tão em voga em meados do Século XX, com forte influência funcionalista,
de maneira, às vezes, preciosamente descritiva, contudo carente de interpretações
e contextualizações. O próximo passo foi solicitar-lhe que escrevesse uma
introdução na qual relatasse sua experiência pessoal no campo, com vistas
a melhor detalhar o contexto e circunstâncias nas quais foram produzidos
os dados do seu estudo. Assim é que
em outubro de 1999 Carlo Castaldi respondeu à minha solicitação enviando-me
um texto, escrito em bom português e auto-reflexivo, que intitulou “Recordando
Itaparica (1953/1954)” no qual falava sobre seu trabalho de campo, os resultados
obtidos, as razões que o levaram a afastar-se da antropologia acadêmica
e sua visão mais recente sobre o que fizera, texto que aqui transcrevo extensivamente.
Recordando Itaparica: o texto recente de Castaldi
Castaldi inicia por falar da temporalidade, espacialidade e propósitos
do seu trabalho de campo realizado entre o dia 1o de agosto de
1953 e junho do ano seguinte, na ilha de Itaparica, material que deveria
ter sido elaborado de uma forma “acadêmica” para sua tese de PhD. que seria
defendida no Departamento de Antropologia da Columbia University de Nova
Iorque, onde naquele mesmo ano fizera seus exames de qualificação e se dirigira
à Bahia para realizar o estudo que o tornariam doutor em Antropologia. Os motivos
de não ter terminado seu trabalho, diz ele, foram vários: “primeiro, e talvez
o mais importante, foi devido ao fato que no final dos meses transcorridos
na ilha (quase um ano) eu estava tão envolvido com a própria ilha e com
seus habitantes que não conseguia me colocar no lugar de um “participant
observer” objetivo e nem considerar os meus amigos como “informants”. Finaliza
esta confissão por dizer que “Precisava deixar que tudo decantasse.”, condição
que parecer ter obtido com o afastamento do campo indo para o Rio de Janeiro”. Voltou ao Rio, onde, diz: “escrevi nos três meses seguintes, um primeiro
(aliás, único) esboço de todo o material recolhido em Itaparica, que corresponde
ao esboço de tese que entreguei ao professor Caroso.” Para terminar a tese,
ao invés de iniciar novos trabalhos, deveria ter voltado à Columbia University,
para discutir o material coletado com seu orientador, Prof. Charles (Chuck)
Wagley e então voltar para Itaparica para preencher as lacunas presentes
nesta versão. O texto etnográfico que ele elaborou e me confiou para fazer uso acadêmico
é constituído de quatro partes, porém existe pouca preocupação em relacioná-las
e demonstrar que fazem parte de um complexo terapêutico religioso mais amplo,
exceto no que se refere à quarta parte que é constituída de rezas comuns
aos vários sistemas de práticas terapêuticas religiosas populares, assim
como lhe falta um arcabouço teórico interpretativo. O trabalho também carece
de uma introdução ao tema e ao objeto do estudo que leve o leitor a ver
claramente seus objetivos, limitando-se a dizer que o “O propósito do projeto
foi de tentar elaborar uma tipologia de alguns das figuras religiosas e
cultos que são encontrados no Recôncavo.” Escolheu para esses estudos três
localidades na costa sudeste da ilha de Itaparica, sua escolha é justificada
com base em dois aspectos: “a) a
ilha é habitada quase exclusivamente por membros das classes baixas para
quem estas figuras e cultos são mais familiares e sobre os quais estes exercem
maior influência; e b) apesar da ilha ser muito próxima a capital do estado
é ao mesmo tempo bastante isolada para atenuar a pressão de uma censura
socialmente branca que os forçaria a ajustar-se a ‘padrões’ brancos.” Com o objetivo de demonstrar
sua idéia de isolamento e inacessibilidade, ele cita que um pai de santo
da Bahia, Procópio, sairia da cidade e viria para a ilha realizar suas obrigações
cerimoniais, uma vez que a perseguição da polícia não permitia que ele as
realizasse na capital. Cabe aqui lembrar que os cultos afro-brasileiros
estavam sujeito a controle policial até a segunda metade da década de 1970.
Assim relata Castaldi, “Procópio vinha com todas suas filhas e três tocadores
de atabaque, ficando várias semanas na ilha.” Registra ainda que os maridos
destas mulheres eram em grande parte estivadores nas docas e vinham no fim
de semana para participar nas cerimônias, ocasião em que eram generosos com dinheiro beneficiando alguns moradores da ilha,
que prestavam vários serviços a esse grupo. Na primeira parte da sua etnografia trata de um candomblé
de caboclos localizado em São João, cuja Ialorixá chamava-se Lilita. Ele
afirma que “este constitui uma reinterpretação local de um sistema de crenças
trazido da África durante a escravidão.”
Na realidade este Candomblé encontrava-se em um contexto de crenças
e práticas religiosas mais amplo, que incluía o famoso culto de Baba Egun,
o candomblé dos mortos, no qual o poder masculino tem preeminência, conhecidos
na ilha como “os pretos de Ponta D’Areia, cujos membros, naquela época procuravam
aproximar-se do candomblé de orixás. Seu relato
sobre os elementos chaves da prática religiosa afro-brasileira inclui a
organização e funcionamento do terreiro, os rituais que este realiza, tendo
ele participado e cuidadosamente descrito uma cerimônia de iniciação, o
bori, e um rito fúnebre de separação, o axexé. Reconstitui detalhadamente,
a partir do relato da mãe de santo, a própria iniciação dela, como resultado
do chamamento através da doença incurável pela medicina convencional, o
que a levou a ser iniciada no candomblé e vir a se tornar uma sacerdotisa. A
segunda é sobre “a figura de um líder carismático, pertencente às tradições
religiosas do nordeste do Brasil”. Este líder se autodenominava São Venceslau,
morando em Porto do Santo [na verdade Porto dos Santos] no local conhecido
como Milagre. Venceslau obtivera a cura para a cegueira e surdez, que se
seguiram a um problema de pele após sua esposa ter fugido com outro homem,
pelo uso da água, que lhe foi prescrita através de revelação onírica e aparição
posterior de Nossa Senhora do Amparo, que o tornou guardião da fonte e deu
poder de curar pela água. Seu discurso místico e práticas terapêuticas tinham
o poder de atrair peregrinos de toda a ilha, de municípios do interior e
mesmo da capital e de outros estados em busca de conforto e cura para suas
várias formas de dores e sofrimentos. Em uma carta
que ele dirige a Castaldi, a quem chama de irmão Carlos, fala da
sua influência na eleição de um deputado, do governador e mesmo da re-eleição
do presidente Getúlio Vargas. Prossegue a relatar a notoriedade e os benefícios
que traz para o local: “todos tiram
lucro do Milagre?” Todos deveriam ser gratos: os padres pelas missas que
ele encomendou para os desvalidos, os médicos a quem ele tem mandado os
que não podem ser curados pela água, as farmácias onde eles compram os remédios
que os doutores receitam, as empresas aéreas que levam as pessoas ao Milagre
de lugares tão distantes quanto São Paulo, os barcos e a Navegação Bahiana
pela mesma razão.” A terceira
parte é sobre a “A figura de um “folk doctor”, uma nova figura que combina
características culturais da tradição africana com aqueles pertencentes
à moderna medicina.” Ai Castaldi relata a trajetória e experiência de um
terapeuta popular que fazia uso de elementos da tradição africana [melhor
dizendo, afro-brasileira] e da medicina
moderna que se apossara trabalhando como auxiliar em um serviço público
de saúde em uma das ilhas da Baia de Todos os Santos onde morou. João Caipó
exercia suas atividades na localidade denominada Buraco do Boi. Foi iniciado
no candomblé ainda criança, após ter manifestado notáveis dons espirituais
que incluíam a vidência. Contudo com o tempo tornou a prática médica sua
principal atividade, só raramente cumprindo suas obrigações rituais, assim
mesmo sem muito interesse por essas, o que aos olhos dos outros lhe colocava
vulnerável à severa punição. A quarta
parte do seu relato é constituído de uma coleção de rezas e seus usos, que
ele identifica serem de duas categorias, a primeira sendo rezas católicas para uso específico e a segunda fórmulas mágicas, que permitem manipular
a realidade em favor do oficiante. Demonstra como estas rezas e fórmulas
mágicas são utilizadas para restaurar a saúde e trazer benefícios às pessoas
que delas fazem uso, assim como representam perigo, podendo trazer efeitos
negativos se utilizadas de maneira inadequada. Castaldi
reconhece a fragilidade dos seus dados com relação ao candomblé de São João, ou seja, para o material que ele diz ser mais
propriamente africano. As outras duas histórias são, na sua visão “simples
e por si muito claras: bastava “contá-las”
assim como tentei fazer.” Os motivos
que o levaram a voltar às suas anotações sobre Itaparica depois de decorridos
45 anos, diz ele serem de duas ordens: o primeiro
porque fui solicitado pela gentileza do professor Carlos Caroso; o segundo
porque, livre da obrigação acadêmica, posso contá-las como lembranças de
pessoas e lugares que para mim são muito queridas. Ao terminar
a redação de sua primeira e única versão do material de campo Castaldi foi convidado para “a estudar com os colegas
brasileiros, C[arolina] Martuscelli e E[unice]
Todescan Ribeiro de São Paulo e P[aul] Galery da Universidade de Minas Gerais,
um episódio de fanatismo religioso, acontecido em abril de 1955 na fazenda
de São João da Mata, município de Malacacheta (Minas Gerais) onde um grupo
de camponeses, membros da Igreja Adventista da Promessa, tinha assassinado
quatro crianças acusadas de serem possuídas pelo demônio”. Ele diz que os estudos realizados em Minas Gerais lhe exigiram muito tempo
na coleta e redação dos textos finais, sendo publicados na revista Anhembi
em 1955. Posteriormente artigos foram republicados em 1957 como capítulos
num livro organizado por Maria Isaura Pereira de Queiroz cujo título
é Estudos de Sociologia e História, com apresentação de Paulo Duarte,
pela mesma Editora Anhembi de São Paulo. No livro contém dois “Estudos de
Sociologia” com uma única introdução de Maria Isaura Pereira de Queiroz:
“A Aparição do demônio em Catulé” [em que quatro partes são de autoria de
Castaldi e as outras duas são, uma de Eunice Todeschan Ribeiro [Durhan]
e uma de Carolina Martuscelli [Bori]; e “Tambaú, cidade dos milagres”, por
Maria Isaura Pereira de Queiróz, que também autora o capítulo “Um estudo
de história: O mandonismo local na vida política brasileira”, que completa
o volume. Em sua apresentação geral Paulo Duarte comenta que “Em agosto
do mesmo ano [1955] publicou a mesma revista [Anhembi] um primeiro trabalho
de Carlo Castaldi sob cuja direção se fez a pesquisa, e que era organizada
sob o patrocínio do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos do Rio de
Janeiro, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia da Universidade
de São Paulo e da Anhembi”. Este “preâmbulo” foi incluído como uma parte
introdutória ao todo o trabalho “A aparição do demônio em Catulé”. Logo em seguida Castaldi participou de uma pesquisa sobre o tema “Mobilidade
e trabalho na cidade de São Paulo” (financiada pela Unesco e pelo Ministério
da Educação brasileiro). O estudo foi dirigido por Bertram Hutchinson, participando
do mesmo Carolina Martuscelli, R. Brandão Lopes. A publicação dos seus resultados
foi feita pelo INEP em 1960. Neste ínterim ele também participou da
intitulado da 1a Reunião Brasileira de Antropologia,
apresentando o trabalho intitulado “Considerações sobre o Processo de Ascensão
Social do Imigrante Italiano em São Paulo", que foi publicado nos Anais
da Reunião em Edição da Universidade da Bahia em 1957.
Columbia e sua vinda ao Brasil
Volto a tomar
as próprias palavras de Carlos Castaldi para relatar sua experiência acadêmica
e vinha à Bahia para realizar seu estudo de campo: “Na Columbia
University, onde eu cheguei em 1949, tinha freqüentado os cursos e os seminários
de Wagley sobre o Brasil e junto tínhamos acertado que eu iria para Salvador
estudar formas de catolicismo de folk e um “candomblé de caboclos”, no Recôncavo
baiano. Esta pesquisa fazia parte do programa “Bahia-Columbia University”
financiado pelo Ministério da Educação brasileiro e pela Wenner-Gren Foundation
de Nova Iorque. No outono
de 1953, aos 28 anos, parti, antropólogo inocente, de Nova Iorque para o
Rio, onde no aeroporto estava me esperando Eduardo Galvão (grande amigo
de Chuck) ele “verdadeiro” antropólogo já reconhecido como tal. Conheci nos
dias seguintes, apresentados pelo próprio Galvão, Anísio Teixeira, personagem
já muito importante na época, alto funcionário do Ministério da Educação
e responsável pela “Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior” e da “Fundação pelo Desenvolvimento da Ciência na Bahia”. Anísio era
um homem miudinho e gentil, de uma gentileza formal, muito “ibérica”, ao
qual apresentei o programa que tinha discutido com Wagley e após alguns
meses deixei o Rio e parti rumo a Salvador. Meu ponto
de referência na Bahia era a “Fundação” que ocupava um lindo prédio da Rua
da Graça 13, uma discreta rua de um bairro elegante. A Fundação era dirigida
por Thales de Azevêdo, antropólogo, acompanhado, no desenvolvimento de sua
atividade, pela irmã de Anísio, dona Carmen Spinola Teixeira, e por uma
amiga dela, a professora Anfrísia Santiago, uma senhora muito austera, de
uma certa idade, que falava com um tom de voz muito baixo e vestia-se sempre
de preto. Sempre através
do Wagley, tinha sido apresentado a uma importante família da aristocracia
local, os J.A., fazendeiros, produtores de açúcar, os quais usaram uma inesquecível
gentileza para comigo. Muitas vezes me convidaram na linda casa deles na
cidade e na fazenda para memoráveis festas (às quais participavam “senhores”
e “camponeses”) e para outros tantos inesquecíveis passeios a cavalo. Em Salvador me alojei numa pensão, a “Anglo-Americana”, perto da “Praça
dois de Julho” cujas janelas davam para uma deslumbrante vista para o mar.
Meus amigos
brasileiros, a pensão “anglo-americana” e o “British Club” me serviam como
válvula de escape quando a intensidade emocional do mundo afro-brasileiro
se tornava, para mim, “demasiado forte”. Passei meus
primeiros meses em Salvador estudando uma “devoção” que tinha sido me assinalada
pela dona Carmen e pela professora Anfrísia. Tratava-se de duas irmãs pias, solteironas, que possuíam uma imagem de São
José, considerada milagrosa, e que era tida em muita consideração também
pela pequena burguesia local. Dai resultou o trabalho denominado “Um
exemplo de catolicismo de “folk” na Bahia”, publicado na revista Sociologia,
em agosto de 1955. Castaldi registra ainda que neste
artigo foi ajudado pela Dra. Eunice Todescan Ribeiro, na época licenciada. A esta altura
ele considera que já falava bem português. Diz já se sentir em casa e podendo
enfrentar situações que exigissem mais dele. Foi através de Thales de Azevêdo
que conheceu o doutor Figueiredo, “pessoa muito simpática, que desenvolvia
sua profissão de médico também em Itaparica.” Prossegue
relatando como escolheu o local para realizar seu trabalho de campo: “Figueiredo
me propôs de ir com ele para Itaparica onde me apresentaria a Dona Lilita
“mãe de santo” do terreiro de São João (do qual ele era um dos “Ogãs”) e
em geral, aos outros amigos dele daquele mundo totalmente novo para mim:
obviamente aceitei logo.” Com referência
a suas experiências anteriores e o estranhamento que teve do campo Castaldi
diz: “Eu vinha de Roma, tinha morado três anos em Nova Iorque, depois um
breve período no Rio, e enfim em Salvador: tinha em outras palavras, sempre
morado em cidades mais ou menos grandes cujo “tempo” com variações de intensidade,
era um “tempo urbano” (e muitas vezes neurótico).” A “separação”
para mim aconteceu quando Figueiredo e eu fomos para o Mercado Modelo para
tomar o “saveiro” para Itaparica. O tempo de espera era imprevisível, como
era normal que fosse, do momento que o saveiro não era um meio de transporte
“público” mas um meio à disposição de
um grupo de pessoas (em geral amigos ou conhecidos) vindos para a cidade
para os motivos mais diversos (cumprir tarefas, fazer compras, ir ao médico),
portanto era necessário esperar que todos tivessem voltado; isso impossibilitava
saber a que hora (pergunta muito “urbana”) podia-se partir. Somente quando
todos tivessem terminado suas tarefas. Para mim, o conceito de “tempo” começava a mudar, mas não era fácil para
um “cidadão” como eu, adaptar-se logo a esta mudança. As esperas
para as partidas, às vezes muito cansativas, eram compensadas pelo prazer
da travessia: o vento, o marulho da água, o lento aproximar-se da ilha. Embora o saveiro chegasse muito perto da ilha precisava sempre “desembarcar”
dentro da água; para os homens era fácil: bastava tirar o sapatos e enrolar
as calças; as mulheres eram ajudadas só se as próprias o pedissem. Depois
iniciavam a desembarcar as bagagens e os animais (até cavalos!). Na época podia-se alcançar Itaparica também de “ferry boat” [na verdade
trata-se de navio da Companhia de Navegação Baiana] e, neste caso, o tempo
“urbano” era mais respeitado, mas o ferry boat atracava somente no cais
da cidade de Itaparica. Para alcançar os outros povoados, que não possuíam
cais [com ponte de atracação], era necessário baldear para saveiros ou embarcações
de remos que vinham ao encontro do ferry boat e a baldeação, considerada
a mobilidade dos meios, era muitas vezes, ainda mais complicada. Com Figueiredo desembarcamos em Amoreira onde ficamos hospedados na casa
do pescador João, ai dormimos em cima de uma esteira desenrolada no chão
de terra batida, entre as baratas. Se menciono este episódio não é para
sublinhar as “incômodas” condições de vida (que, devo dizer, nunca me preocuparam
muito), mas para mostrar como aquelas “condições incômodas” me levaram a
fazer uma outra projeção “urbana”, em outras palavras, fiquei marcado pela
simplicidade (pela inocência?) com que os habitantes da ilha viviam sua
pobreza, certamente ajudados, por um lado, pela beleza e amabilidade do
lugar. Após uns dois dias transcorridos na casa de João, Figueiredo fez com que
eu pudesse me alojar em São João no terreiro de dona Lilita, onde havia
uma casa (de barro com o teto de palha) toda para mim e um “criado”, Eliseu,
pessoa gentil, que me dava assistência. São João era uma comunidade de uma dezena de casas dispostas entorno do
“barracão” onde moravam Lilita e sua família em senso amplo (avós, pais,
primos, netos), uma comunidade animada pelas próprias atividades domésticas,
pelo trabalho dos homens (marinheiros e agricultores), mas, sobretudo pelas
tarefas que Lilita tinha que cumprir como mãe de família, terapeuta e “mãe
de santo”. O culto exigia, entre outras, o respeito ao calendário das cerimônias, portanto
das festas, cuja preparação requeria um trabalho do nível da montagem de
um verdadeiro espetáculo. É verdade que a tradição regulava sua seqüência,
mas a organização da festa, desde a preparação dos enfeites até a comida
a ser oferecida, a manutenção das roupas de cada orixá (fantásticas se considerarmos
estar num ambiente paupérrimo), requeria dias de trabalho por parte das
mulheres de São João, e em geral, das filhas de santo do “terreiro”. Durante a “festa”, que durava em geral três noites, os atabaques tocavam,
com breves pausas, do por do sol até ao amanhecer do dia seguinte. Além
dos protagonistas do cerimonial havia, naturalmente, o público, um público
numeroso devido ao bom nome tido pelo terreiro de Dona Lilita. Permaneci em São João por quase três meses, empenhado em entrevistar Lilita
e todos aqueles que tinham um papel específico no desempenho das obrigações
do culto. Sinto muito de não ter freqüentado o candomblé de Eguns em Tum
Tum, uma localidade próxima a Ponta de Areia. Fui para lá uma vez só, acompanhado
por Pierre Verger que tinha uma grande familiaridade também com aquele grupo. Os Eguns são as almas dos mortos (são de fato uns esqueletos) e, para não
amedrontar muito os participantes, se apresentam na sala (fechada, grande,
escura) cobertos da cabeça aos pés por enormes mantas cheias de peças de
espelhos que brilham a luz das velas; os fieis não podem olhá-los, têm
que manter o olhar baixo e comunicar com eles através dos ajudantes. Embora o candomblé de Eguns seja completamente diferente do candomblé dos
orixás-caboclos (“Caboclos e Eguns não se dão”), Olegário, figura central
do Tum Tum, aparece muitas vezes nas histórias de vida dos membros da comunidade
de São João, e tem, sem dúvida, um lugar de destaque, não somente no parentesco,
sobretudo na cerimônia fúnebre que descrevo no texto. Sinto muito também de não ter formulado minha hipótese interpretativa sobre
o efeito terapêutico do candomblé, que pode ser ligado, a meu ver, à psicologia
arquetípica junguiana, em outras palavras o efeito benéfico da iniciação
poderia ter sido induzido pela identificação do arquétipo dominante da personalidade
do iniciando. A identificação era feita através da interpretação dos “búzios”
[1]
e se o iniciando aceitasse esse “anjo da guarda” honrando-o
segundo as modalidades prescritas, então estaria curado de suas dores. “Neste
ponto Castaldi conclui que dado à prevalência da dor na experiência humana
da pessoa, a presença de terreiros, de terapeutas tradicionais e muitas
rezas seria uma forma de lidar com as muitas formas
que a infelicidade humana assume também na “feliz ilha” de Itaparica, a
este propósito relembra a presença de “Boneco” [como é conhecido São
Venceslau] e João Caipó, os dois outros
terapeutas que estudou. Tendo dado conta da sua primeira etapa de trabalho, prossegue relatando:
“[Mesmo] quando, por motivos de trabalho, fui morar em Mar Grande continuei
a visitar dona Lilita, tanto para participar
das festas, quanto para bater papo com os meus amigos de São João. Mar Grande era na época um povoado, com poucas casas pobres: os edifícios
de dois andares eram raros, um era a pousada “Mar Grande”, um sobrado construído
talvez na época em que a caça à baleia enriqueceu a ilha. Depois não tinha
nada mais que algumas modestas casinhas de pequenos burocratas locais ou
casas de praia. A pousada era dirigida por um elegante casal da Romênia
e uma cozinheira lindíssima: Regina. Ali eu tinha dois grandes quartos que
davam para o mar. Levei à pousada, emprestado pela “Fundação”, um gravador e, ajudado por
Regina, consegui organizar reuniões onde se gravava a voz de qualquer um
que desejasse cantar ou tocar. Após o receio inicial, as “reuniões” tiveram
muito sucesso, sobretudo porque as pessoas se divertiam em ouvir a própria
voz novamente. Deste material, a casa americana “Ethnic Folkways” editou
um disco “Songs and dances from Bahia”. O dia começava muito cedo, portanto à noite, após o trabalho, ia-se tomar
banho”, as mulheres numa fonte, os homens numa outra: os homens, após o
jantar encontravam-se numa certa “venda” (não lembro o nome do proprietário)
onde, de cócoras (eu nunca consegui), batiam um longo papo sobre tudo e
sobre todos. No domingo, em vez da venda os homens começavam a se reunir de manhã na
“roça dos galos” (não lembro de alguém que fosse à Missa talvez porque a
única igreja encontrava-se na cidade de Itaparica). Depois que deixei a tranqüila comunidade de São João, tive que me organizar
para os deslocamentos que a nova fase do meu trabalho requeria. Na época,
se andava pela ilha a pé ou a cavalo, tinha, portanto, necessidade de providenciar
um cavalo e de alguém que tomasse conta dele. Comprei Arnold (em homenagem
a Toynbee) na feira dos cavalos da Bahia. O segundo cavalo, Segredo, o comprei
na mesma feira com Valtério dos Santos, Vavá, seu apelido. Quem era Vavá? Vavá era o meu melhor amigo, mas jovem do que eu em alguns
anos. Tinha conhecido ele na “roça dos galos” (pois a freqüentava muito
por possuir ele mesmo galos de combate) quando procurava alguém que cuidasse,
inicialmente só do Arnold, e num segundo momento também de Segredo. Sua tarefa principal era aquela de cuidar dos cavalos, mas com o tempo,
nos tornamos grandes amigos e passávamos juntos dias inteiros. Embora muitas
vezes ele me acompanhasse nos meus encontros de trabalho, evitava com cuidado
de participar e enquanto eu trabalhava ele ficava batendo papo com os amigos,
tomando conta de Arnold e Segredo. Vavá tinha uma postura ambivalente em
relação aos cultos afro-brasileiros, participava das festas, mas sem grande
entusiasmo. Seu maior interesse era as mulheres; Vavá era um jovem bonito.
Quando o conheci tinha uma mulher e um filho (Tutuca) em Mar Grande, uma
namorada em Itaparica e uma amante em Amoreira ou vice-versa, nem por isso
subtraia-se a fugazes aventuras com outras moças. Vavá tinha formulado uma escala
de raças muito precisa; falava mal (aliás, malíssimo) dos “negros” (sobretudo
dos negros ‘‘azuis’’ de Amoreira). Como eu o via como um negro, perguntei-lhe
como ele se considerava. Segundo o ponto de vista dele eram negros aqueles
da “cor do telefone” (não sei onde ele podia ter visto um telefone, talvez
na Bahia), depois havia aqueles da “cor do café”, cor à qual, parece, ele
se considerava pertencer, e uma longa série de tonalidades, das quais infelizmente
não lembro as definições: eu,naturalmente, era sem sombra de dúvida, branco. Nunca perguntei a mim mesmo como
os nativos podiam me ver e considerar e como consideravam o meu trabalho,
afinal eu me dava tão bem com todos que nunca me passou pela cabeça de investigar
sobre esta questão. Hoje, ao contrário, acho que teria sido muito interessante
fazer este tipo de pesquisa: quem sabe quais “associações” teriam surgido
sobre a minha pessoa e sobre o meu ser antropólogo. Os deslocamentos a cavalo (Vavá
tinha me ensinado a andar a passo travado) ou a pé, quando a maré era baixa,
fizeram que eu conhecesse aquele trecho da costa em todos os seus detalhes:
as palmeiras na beira-mar, os peixes voadores, a lindíssima areia, ou quando
a maré era alta e tínhamos que percorrer as estradas da campanha, os pequenos
macacos, o vasto silêncio e as mulas que tinham sido objeto de seu desejo
(de Vavá obviamente), ou passivas amantes (ou não? quem sabe?) de outros
amigos comuns dos quais dizia os nomes, até pessoas que não eram mais muito
jovens, pai de família, ciumentos das próprias mulheres e talvez também
de suas mulas. Quando chovia, ficávamos de cueca
para não molhar as roupas: a cueca de Vavá! Calções de banho feitas de algodão
com uma cordinha para segurá-las, eram pudicas, dignas e pobres, como eram
também pobres e dignas as roupas usadas pelo pessoal da ilha, homens e mulheres,
fora, no caso das mulheres, quando vestiam o lindíssimo traje “baiano”. Quando releio o esboço da minha
tese me dou conta que nada transparece da beleza da ilha e da peculiaridade
de seus habitantes. Nunca falo da presença de dona Lilita, de dona Avani,
a anoréxica amante de São Venceslau, nem daquele personagem, terrível pelo
seu cinismo, que era João Caipó. Mas uma medida do cinismo, ou
melhor, da tendência à vingança, é comum aos três personagens, porque os
três tinham prazer de contar histórias onde quem fez a eles o mal ou duvidou
de suas capacidades é punido também com a morte, morte de alguma forma,
merecida. Afinal eram como “empresários” e no contexto socioeconômico
da ilha, tinham que ser considerados tais, pois embora não possuíssem capital
e fossem semi-analfabetos, tinham conseguidos criar algumas atividades bastante
lucrativas, graças a suas personalidades fortes, a seus caracteres dominantes. Estas últimas considerações aplicam-se
melhor a “Boneco” e “Caipó” que a Lilita. Tornar-se “mãe de santo” requer
uma longa preparação, mas, sobretudo requer “acreditar” no culto do qual
a pessoa se torna ministro. Enquanto que os dois homens, “metteurs en scéne
de soi même” [diretores de seus próprios atos], eram também livres para
não acreditar em sua própria representação. Quando eu parti, dona Lilita me
deu de presente “a pomba” de Oxóssi porque pudesse abrir “o caminho no Rio”.
São Venceslau ficou triste de perder o seu São João (evangelista naturalmente).
Não lembro da despedida com Caipó. Para Vavá deixei de presente Segredo
e uma casa de farinha. Vendi Arnold, embarcando-o com a ajuda de Vavá, num
saveiro que voltava para Bahia. Vavá tinha vindo com Segredo; à noite Segredo
voltou por conta própria à beira do mar para esperar Arnold, mas nem o Arnold
nem eu voltamos mais. Enquanto isso tinham se passado
cinco anos desde minha chegada no Brasil, tinha, portanto chegado o momento
de decidir se ficar ou voltar para a Itália e, para decidir, voltei para
à Itália onde uma sociedade de consultoria, encarregada pelo governo iraniano
de elaborar um projeto de desenvolvimento sócio-econômico para o sudeste
do país (Beluchistão e Sistão), me ofereceu para trabalhar com seus técnicos
para medir as intervenções na realidade tribal na qual esta sociedade tinha
que atuar. Aceitei o encargo e aquela empresa,
com meu consentimento, mudou completamente a minha vida.
Comentários
Do contato continuado que mantivemos
por alguns anos, repetidamente planejamos a vinda de Castaldi à Bahia, que
foi seguidamente adiada em função de dificuldades mútuas. Neste intervalo
re-visitei seus locais de trabalho onde entrevistei alguns dos personagens
dos quais ele fala no seu texto. Enviei-lhe entrevistas transcritas e fotografias
de pessoas conhecidas suas e locais onde estivera, tentando lhe passar uma
imagem da mudança e estimulá-lo a vir rever aquilo que dizia ser tão caro
para ele. D. Lilita
delegou a direção do seu Candomblé para o filho que já “nasceu feito”, pois
ela se encontrava grávida dele no momento em que passou por sua própria
iniciação, em virtude da sua idade avançada e de um derrame que lhe afetou
a memória. Contudo aos 83 anos de idade continua a ser a Ialorixá da casa,
sob cuja autoridade as cerimônias são realizadas. São Venceslau
“morreu apaixonado” em 1962 vinte dias após ser expulso dos Milagre pelo
novo proprietário das terras onde este ficava, conforme uma versão romântica
dada por um mesmo informante que à época de Castaldi liderava a oposição
ao “Santo” e que hoje tenta promover o local através da sua memória.
O Milagre tornou-se terra pública, na qual foi construído um memorial
a Venceslau Monteiro, e atualmente constitui um espaço sagrado para o qual
convergem praticantes de vários credos para realizar suas cerimônias (Grupos
Esotéricos, membros da Eubiose, Católicos, Espíritas, Umbandistas, Candomblecistas
e mais recentementes adeptos do Xamanismo Urbano), sendo o irmão Venceslau
cultuado por vários destes e as água da fonte usadas em rituais de iniciação
religiosa por reconhecidas qualidades milagrosas. Seu nome foi atribuído
à unidade pública de saúde de Porto dos Santos, por demanda dos seus moradores
que foram consultados pela administração do município. João Caipó
também morreu, mas ainda não encontramos pessoas que possam reconstituir
sua vida após o momento que sua prática e trajetória foram registradas por
Castaldi. Vavá, também
morto, ainda é mencionado como o melhor amigo de Castaldi no local por aqueles
que o conheceram. O cavalo Arnold passou a fazer parte da imagem associado
a Vavá e ao antropólogo. Oxóssi Mineiro,
o “orixá preferido de Castaldi”, que se manifesta em D. Lilita incontrolavelmente
a todos os momentos, tinha lhe dado um aviso que alguém da parte dele chegaria
nos dias em que a visitamos pela primeira vez. A última
comunicação que tive com Castaldi foi em outubro de 2001, quando confirmou
sua vinda à Bahia para o mesmo mês do ano de 2002. Na época aprazada as
várias tentativas de contato ficaram sem resposta. Em novembro último tomei
conhecimento de que ele falecera em agosto do ano em que, enfim, re-encontraria
seus “nativos”. Seu estudo
de práticas terapêuticas religiosas que se apresentam sob diferentes formas
na camadas populares, constitui, sem dúvida, uma das primeiras incursões
no florescente campo de análise antropológica que veio a constituir a Antropologia
Médica. As descrições cuidadosas e ricas, somadas ao seu relato sobre o
contexto do estudo, tornam o texto que registrou aberto para interpretações
à luz da teoria antropológica contemporânea, particularmente se colocado
em perspectiva diacrônica como venho fazendo, através da reconstituição
das ocorrências significativas após eu trabalho de campo. Em vista da importância
do seu trabalho, que nunca foi levado a público, e em atenção ao seu pedido,
atualmente realizo a tradução comentada do seu texto original com vistas
a publicá-lo. Seu material passou a fazer parte de meu amplo projeto de
pesquisa na UFBA, que visa a estudar os taumaturgos e terapeutas populares
exponenciais da tradição religiosa, objeto a que tenho me dedicado nestes
últimos anos.
Produção de Carlo Castaldi no Brasil
CASTALDI, Carlo; RIBEIRO, Eunice
Todeschan e MARTUSCELLI, Carolina.A Aparição de demônio em Catulé [Minas
Gerais]. In PEREIRA DE QUEIRÓZ, Maria Isaura; CASTALDI, Carlo; RIBEIRO,
Eunice Todeschan e MARTUSCELLI, Carolina. Estudos de Sociologia e História.
Apresentação de Paulo Duarte, Introdução de Maria Isaura Pereira de Queiróz.
São Paulo, INEP – ANHEMBI. 1957, pp.
17-130.
CASTALDI, Carlo. Um exemplo de catolicismo de “folk” na Bahia, “Sociologia
[revista da Escola Livre de Sociologia e Política, instituição complementar
da Universidade de São Paulo, vol. XVII, n. 3, 1955, pp. 231-253.
CASTALDI, Carlo,
"Considerações sabre o Processo de Ascensão Social do Imigrante Italiano
em São Paulo", Anais da 11a Reunião Brasileira de Antropologia,
Edição da Universidade da Bahia, 1957, págs. 311-314, esp. pág. 313.
HUTCHINSON, Bertram A. Mobilidade e trabalho;
um estudo na cidade de São Paulo. (Diretor da pesquisa): Rio de Janeiro:
Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais, INEP, Ministério da Educação
e Cultura, 1960. (Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Publicações.
Série VIII: Pesquisas e monografias, v. 1).
CASTALDI, Carlo. Songs and dances from
Bahia. Disco editado pela Ethnic Folkways.
S/D.
Revisão Crítica
QUEIROZ, Renato da Silva. O Caminho do Paraíso: O Surto Mesiânico-milenarista do Catulé. Coleção Religião e Sociedade Brasileira. Vol. 6. São Paulo: FFLCH/USP-CER. 1995. [1] Os “búzios” são as conchas de pequenos gastrópodes do Oceano Indiano muitas vezes usadas na África seja como moeda que para a adivinhação. Os “búzios”, no mínimo três, são jogados, como fossem dados, em cima de uma peneira de palha quadrada. No candomblé são sempre utilizados por mãe de santo para identificar o “dono da cabeça” da pessoa que vai pedir ajuda. A leitura dos búzios é uma arte e quem a possui não quer transmiti-la.
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