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A sociologia de Guerreiro
Ramos
[Texto apresentado
no Seminário O Projeto UNESCO: 50
anos depois, organizado pelo Centro de Estudos Afro-Orientais da UFBA,
de 12 a 14 de janeiro de 2004.]
Lúcia
Lippi Oliveira*
Para
falar de Guerreiro Ramos, costumo dizer: inteligência brilhante, capaz de
insights memoráveis, que se mostram cada
dia mais atuais. Ao mesmo tempo temos que lembrar que ele produziu fora
dos cânones acadêmicos de sua época. Além de Weber e Mannheim, gostava de
citar autores que hoje estão esquecidos, como Gurvitch. Brigou com quase
todos os seus pares e principalmente se desentendeu com Florestan Fernandes,
figura central na constituição do campo da sociologia acadêmica na Universidade
de São Paulo. Talvez isto nos ajude a entender seu próprio ostracismo na
sociologia brasileira. Como
intelectual de seu tempo, Guerreiro era portador de uma visão messiânica,
comprometida com o Brasil e com as lutas da época. Fazer ou não parte do
mundo civilizado, conseguir alcançar os padrões do Primeiro Mundo, eram
questões que vinham atormentando os intelectuais brasileiros desde, pelo
menos, a segunda metade do século XIX. A comparação com outras situações
históricas revelava uma diferença que
foi lida como sensação de ausência, de falta, de estarmos
sempre diante de uma identidade incompleta. Os intelectuais vivenciaram
essa marca da cultura assumindo uma postura salvacionista, uma perspectiva
missionária em relação ao Brasil. Se a consciência nacional e o messianismo
podem ser tomados como características marcantes da autodefinição do intelectual,
as formas particulares de realização desses traços variaram no tempo e se
alteraram dependendo das conjunturas. Quais
eram os desafios do tempo de Guerreiro Ramos, e como podemos situar sua
produção dentro do contexto dos anos 1950 e 1960? Os anos que se seguiram
ao fim da Segunda Guerra Mundial recolocaram na ordem do dia a questão de
como modernizar as sociedades periféricas. Nos anos 1950 o estudo das sociedades
chamadas subdesenvolvidas integrava a questão da reorganização do “mundo
livre”. “Como a sociedade se desenvolve” passou a ser questão central das
ciências sociais da época - como definir claramente a oposição entre tradição
e modernidade; como encontrar os substitutos funcionais da ética protestante
para localizar as modernizações que teriam condições de dar certo; como
entender as diferentes etapas desse processo. As mazelas sociais - personalismo,
familismo, patrimonialismo- explicariam por sua pré-modernidade as dificuldades
e diferenças nas etapas do desenvolvimento. Tudo isso valeu para a América
Latina e para o Brasil e conformou o pensamento e as propostas dos intelectuais
e cientistas sociais.
As
transformações em curso na sociedade brasileira durante o governo de Vargas,
principalmente no Estado Novo, e o impacto da Segunda Guerra Mundial foram
importantes para alterar a idéia de nação desejada. Nos anos 1930 houve
um profundo debate sobre os valores e as origens da sociedade brasileira.
Podemos citar entre os trabalhos mais relevantes Casa
Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, publicado em 1933, e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de
Holanda, de 1936. É preciso lembrar que a discussão sobre os modelos fundadores
da sociedade brasileira acontecida nos anos 30 e 40 teve lugar no mesmo
momento em que se assistia à penetração cultural norte-americana na América
Latina e no Brasil, como resultado de uma ação política governamental dos
Estados Unidos, desenvolvida durante a Segunda Guerra. A presença norte-americana
vai ser então intensificada, visando a enfrentar as políticas culturais
da Itália, da Alemanha e do Japão – vale lembrar as colônias alemã e italiana
no Sul do país e o grande número
de imigrantes japoneses e italianos em São Paulo. A
criação de uma agência oficial, o Office for the Coordination of Inter American
Affairs (OCIAA), em 1940, marca esse momento de ação cultural do governo
americano no hemisfério sul. Sob a direção de Nelson Rockefeller, a agência
realizou a preparação do esforço de guerra, coordenando agências estatais
e privadas, mobilizando a comunidade norte-americana de negócios no reforço
da solidariedade hemisférica. O OCIAA cuidou da transmissão de notícias
de guerra, da divulgação do sacrifício dos americanos nos campos de batalha,
assim como da divulgação do Brasil nos Estados Unidos. Coube a ela, entre
outras atividades, orientar os anúncios de empresas americanas nos veículos
de comunicação brasileiros. A revista Seleções
do Reader’s Digest, na qual trabalhou Afrânio
Coutinho quando estava nos Estados Unidos, foi lançada no Brasil em 1942
e pode ser citada como um dos resultados de grande sucesso dessa política.
A
Divisão de Cinema da OCIAA conseguiu conquistar
artistas e cineastas, como Walt Disney, para a “causa
da liberdade” nas Américas. Foi também essa agência que patrocinou a visita
de astros e estrelas de Hollywood à América Latina e ao Brasil. Nesse esforço
se inseriu o mundo do cinema e, em particular, a visita de Walt Disney ao
Brasil em 1941, a produção do desenho Alô,
amigos! e o nascimento do Zé Carioca. Fez parte desse intercâmbio cultural
a ida de Carmen Miranda para os Estados Unidos. Do lado brasileiro, a ação
contou com a colaboração do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP)
e de autoridades do governo brasileiro (TOTA, 2000). A Segunda Guerra levou a uma redefinição de grupos e correntes
ideológicas que desde os anos 30 tinham se dividido entre direita e esquerda
no mundo e no Brasil, com a Ação Integralista Brasileira (AIB) e a Aliança
Nacional Libertadora (ANL). A aliança entre os Estados Unidos e a União
Soviética no combate ao nazismo contribuiu para essa reestruturação. A eclosão
da Guerra Civil espanhola, em 1936, já tinha propiciado uma aproximação
dos intelectuais do continente e, com a Segunda Guerra, com a queda e a
ocupação de Paris em 1940, produziu-se um impacto dramático pelo significado
que a Cidade Luz tinha para a intelectualidade
ocidental. Isso aparece mais tarde na obra de Jorge Amado Farda, fardão, camisola de dormir, onde um personagem morre ao saber
da ocupação de Paris pelos alemães. A
partir de 1942, as forças democráticas começam a se rearticular e passam
a fazer a defesa das reformas políticas, pregando a anistia para os presos
políticos, a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte, liberdade
de expressão e de organização. O Partido Comunista participa desse movimento
e se torna um partido legal e popular. Consegue resultado eleitoral expressivo
em 1945 e 1947, edita jornais e revistas, participa do movimento sindical
e conquista simpatizantes de setores médios e intelectuais. A
partir de 1947, com a divisão ideológica
do mundo pela chamada “guerra fria”, os antigos aliados se separam,
e tem início a perseguição aos comunistas, com a cassação dos mandatos de
seus deputados e do registro do partido. As aproximações anteriores caem
por terra e passa-se a operar a partir da divisão entre o mundo ocidental-
cristão e o comunista Entre
1950 e 1954, o Partido Comunista assume posição contrária às alianças em
torno de um governo de união nacional. Considera o governo brasileiro fascista
e subordinado aos interesses norte-americanos. Passa a defender uma frente
democrática de libertação nacional e assume a luta contra o imperialismo.
Luta também contra os sindicatos subordinados ao Estado. Comunistas e trabalhistas
disputam espaço junto ao operariado e aos sindicatos. O
suicídio de Vargas em 1954 altera esse quadro. A manchete do jornal comunista
Imprensa Popular para o dia 24 de agosto era “Abaixo o governo de
traição nacional de Vargas”, mas a reação popular produz uma alteração em
sua linha política. A partir daí, com
a liberdade desfrutada nos anos JK e, mais importante, com as denúncias
contra o período stalinista no XX Congresso do Partido Comunista da União
Soviética, os pontos de vista do Partido são abalados. O governo JK, seu
Plano de Metas e a industrialização em curso servem para modificar as teses
que interpretavam a política brasileira como voltada para
conservar o latifúndio e garantir sobrevivências feudais no Brasil. Entre
1958 e 1960, o Partido assume a questão da revolução brasileira em uma perspectiva
de Terceiro Mundo, vendo-a como uma etapa da futura revolução comunista.
Organiza sua luta visando a uma revolução democrático-burguesa executada
por uma frente incluindo o proletariado, os trabalhadores rurais, a pequena
burguesia, a burguesia. Essa frente seria dirigida pela classe operária,
cuja vanguarda era o Partido. O Estado brasileiro passa ser visto como heterogêneo,
composto de forças diferentes e divergentes, e o Partido pensa em ocupar
partes do aparelho do Estado. A
democracia servia à luta operária. Em
1961 e 1962, o Partido Comunista encampa a luta por “reformas de base”,
originalmente uma plataforma do PTB, e considera que essas reformas – agrária,
bancária, administrativa, urbana, fiscal, eleitoral – seriam fundamentais
para desencadear a revolução. Nesse momento,
reforma e revolução são vistas
como estreitamente ligadas - uma provocaria a outra ( SEGATTO, 2003, p.
234). Nos anos que antecedem o golpe civil-militar de 1964, os comunistas
passam a defender “Reformas, na lei ou na marra!” e a atacar a política
de conciliação do governo Jango. Consideram estar o Brasil vivendo uma crise
revolucionária com condições de
passagem do poder estatal para as mãos das forças revolucionárias. A Revolução
Cubana de 1959 fornece os ingredientes para o sonho da revolução. Essa
visão panorâmica sobre a trajetória do Partido Comunista, tomada do texto
de José Antônio Segatto (2003), nos ajuda a apontar a crise e as questões
em jogo nos anos 1958 a 1964, permitindo inclusive sua classificação como
um “tempo denso”. Que
mais podemos lembrar para nos ajudar a configurar o contexto político dos
anos 1950? É nessa década que é construída uma nova categoria para pensar
o Brasil e a América Latina. Não se falará mais em “atraso” mas em “subdesenvolvimento”.
Esse conceito foi elaborado pelos
pensadores que participavam da Comissão Econômica para a América Latina
(Cepal), órgão das Nações Unidas criado em 1948, com sede em Santiago do
Chile. As
idéias da Cepal – a industrialização pela substituição de importações; a
deterioração dos termos de troca; a necessidade de proteção do mercado interno;
o papel fundamental do Estado no processo de desenvolvimento - tiveram no
economista Celso Furtado um de seus formuladores. Mas essa nova matriz, elaborada a partir da análise econômica, irá
transbordar para outros campos do conhecimento. O grande tema passa a ser
a Mudança Social. A sociologia volta-se para a debate e a pesquisa sobre
os condicionantes sociais do desenvolvimento; as resistências à mudança;
a dicotomia arcaico versus moderno. O
projeto nacional-desenvolvimentista que se desenvolveu à época teve como espaço principal de formulação o
Instituto Brasileiro de Estudos Sociais e Políticos (IBESP), criado em 1952.
Lá se formulou uma perspectiva nacionalista ocupada com o Terceiro Mundo,
ou seja, postulou-se uma terceira posição entre os dois blocos em que se
dividia o mundo durante a Guerra Fria. O IBESP iria se desdobrar em ISEB
(Instituto Superior de Estudos Brasileiros), criado em 1955 dentro do Ministério
da Educação. O ISEB assume a mesma perspectiva da Cepal, já que a economia
oferecia uma explicação estrutural para os problemas brasileiros. Mas acrescenta
a ela a necessidade de uma ideologia do desenvolvimento, sem a qual não
haveria processo de mudança. Nessa ideologia do desenvolvimento,
o Estado assumia o papel de principal agente da modernização e também da
democratização. O nacionalismo de então era pensado como uma ideologia capaz
de vencer as forças de exploração das massas. Diversos
autores estiveram envolvidos nessa aventura intelectual e política, entre
eles Hélio Jaguaribe, Álvaro Viera Pinto, Nelson Werneck Sodré, Roland Corbisier
e Guerreiro Ramos. Cada um deles produziu leituras particulares dos dilemas
de seu tempo. Cada um deles enfrentou o pomo da discórdia - nacionalismo
versus entreguismo – sob um ângulo específico.
O livro de Hélio Jaguaribe – O nacionalismo
na atualidade brasileira (1958)- foi um divisor de águas, já que nele
o autor defendia a convivência com o capital estrangeiro. O
período entre 1945 e 1964 é também chamado de populista, sendo o populismo
entendido como um processo de mobilização das massas e de disposição das
elites políticas de ir ao encontro do povo. Assim, igualmente estão presentes
nos debates da década questões relacionadas ao processo de transição, ao
colonialismo interno, à revolução brasileira, à aceleração do tempo histórico.
São
formulados diferentes diagnósticos sobre o atraso, ou melhor, sobre o subdesenvolvimento
brasileiro: o coronelismo, o clientelismo, o patrimonialismo estão entre
eles, como pode ser observado em dois livros-chave da época. Em 1949 é publicado
Coronelismo, enxada e voto, de Victor Nunes
Leal; em 1958 sai a primeira edição de Os donos de poder, de Raymundo Faoro. Coronelismo, patrimonialismo,
clientelismo e populismo são as categorias utilizadas para a interpretação
do Brasil da época e apontam para o que seriam os impasses no processo de
modernização do país. Os
anos 50 também dão origem aos primeiros desencontros entre a produção do
ISEB e da USP que podem ser exemplificados na polêmica entre Guerreiro Ramos
e Florestan Fernandes (OLIVEIRA, 1995; BARIANI JUNIOR, 2003). O projeto
Unesco tangencia essa polêmica, assim como os estudos sobre o mundo rural
caipira desenvolvidos por Maria Isaura Pereira de Queiroz e Antonio Candido.
A trajetória
de Guerreiro Ramos
A
consciência nacional e o messianismo estiveram presentes na vivência e nas
obras de GR ao longo de toda sua trajetória. GR foi porta-voz de propostas
de salvação nacional. A sociedade
brasileira cobrou deste “mulato baiano” soluções para inúmeros problemas
nacionais. Ele comprou a cobrança e procurou respondê-la lançando mão de
tudo que acumulou em termos de conhecimento, erudição, vivência. Guerreiro
foi homem de seu tempo, comprometido com as lutas da época. Sua trajetória
oscilou entre o comprometimento e o ceticismo. Este outsider da academia sociológica no Brasil tem recebido atenção de
algumas dissertações de mestrado como a de José Saraiva Cruz ( 2002, UERJ)
e a de Edison Bariani Junior (2003, Unicamp). José Saraiva Cruz (2002) observa
que é com Guerreiro que o “povo” aparece como categoria sociológica. Quer, deseja, aposta em mudanças, em transformações
na sociedade brasileira. Partilha da expectativa de que o desenvolvimento
(industrialização e urbanização) mudará a sociedade e defende a atuação
do Estado como agente do desenvolvimento e da democratização. Edison Bariani
Junior (2003) acompanha com sintonia fina as divergências entre Guerreiro
Ramos e Florestan Fernandes. Para
entender a trajetória de Guerreiro Ramos e sua produção intelectual é esclarecer
acompanhar os temas, as questões, os desafios de seu tempo. GR nasceu em
Santo Amaro da Purificação em 1915. Já em Salvador foi influenciado por
um pensamento católico que derivava da revista Esprit e que teve
em Jacques Maritain um expoente. Fez parte de uma elite, de uma geração
intelectual baiana da qual fazia parte Rômulo Almeida - aliás foi ele quem o chamou para a Secretaria
de Educação sob o comando de Isaías Alves, irmão do interventor Landulfo
Alves. Embora se declare não pertencente a nenhum grupo, Guerreiro teve
atuação no Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda do Estado Novo.
Antes, na juventude, Guerreiro Ramos, Rômulo Almeida e a Abdias do Nascimento
tinham sido integralistas. Rômulo e Abdias se encontram na prisão. Guerreiro,
por sua vez, estará junto com Abdias no Teatro Experimental do Negro a partir
de 1944. Os
anos 1930 na Bahia foram muito fecundos. Ali foi celeiro de diferentes intelectuais
que vieram a ter papel de destaque nas Ciências Sociais e na esquerda brasileira.
Afrânio Coutinho, Edison Carneiro, Áydano do Couto Ferraz, Jorge Amado serão
os mais conhecidos. Vamos
mencionar aqui os trabalhos de GR sobre relações raciais no Brasil. Eles
foram produzidos entre 1948 e 1955, ou seja, enquanto ele estava no DASP
e na Assessoria da Presidência da
República. Seu
importante artigo, “Contatos raciais no Brasil”, foi publicado na Revista
Quilombo em seu primeiro número, em 1948. Seguindo Soares (1993), vamos
indicar como GR pontua o tema. Para ele, a questão do negro não é uniforme
no Brasil, há diferenças regionais e de classe; o preconceito de cor não
equivale ao preconceito racial; o homem de cor assimila os padrões da cultura
dominante e se vê segundo os padrões dos brancos; há ressentimento do homem
de cor de posições mais baixas contra homens de cor de posição mais elevada;
o Brasil não tem um sistema de castas (ou seja, é possível mobilidade social);
o mestiço se vê do ponto de vista do branco, tende a camuflar suas marcas;
os traços culturais africanos são tratados como pitorescos, o que propicia
a indústria turística do pitoresco; o padrão estético da população brasileira
é o branco. Nesta
primeira abordagem sobre o tema, GR discute e defende o processo de integração
do negro à sociedade brasileira. Discute os mecanismos de integração e defende
técnicas – através do processo catártico do teatro- capazes de libertar
os negros dos ressentimentos e das ansiedades. O Teatro Experimental do
Negro, criado em 1944, era expressão de uma elite de homens de cor e forneceria
o melhor exemplo de experimento psico-sociológico para adestrar os participantes
nos estilos de comportamento das classes médias e superiores. GR fazia grupos
de terapia como caminho para solucionar a ambivalência da subjetividade
do homem de cor. Foi diretor do Instituto Nacional do Negro, que, junto
com o Museu do Negro, compunha o TEN. A questão fundamental aqui é a promoção
social do negro, prepará-lo para a vida social eliminando o ressentimento. Uma
outra perspectiva se fez presente em seus trabalhos relativos ao tema, nos
anos 1954 e 1955, e está consignada principalmente em um capítulo do seu
livro Cartilha brasileira para aprendiz de sociólogo
(1954). A questão agora aparece inserida na necessidade de elaboração de
uma consciência sociológica da situação do homem de cor. As relações raciais
devem ser tratadas como um aspecto da sociologia nacional. Guerreiro parte
para a crítica à sociologia e à antropologia praticadas no Brasil. A antropologia,
segundo ele, é alienada, tanto pelas categorias quanto pela temática praticada.
Estrutura social, aculturação, mudança são categorias transplantadas derivadas
da antropologia, que faz dos povos primitivos material de estudo e racionaliza
a situação colonial. Os problemas do negro, como do índio, são aspectos
particulares do problema nacional e dependem da fase de desenvolvimento
econômico do Brasil. A
questão do transplante e da falta do que chama “posição crítico-assimilativa”
da ciência social estrangeira é central na análise das correntes e autores
que tratam do negro. Esta questão é central em toda a obra do autor e será
mais explicitada em A redução sociológica,
obra publicada em 1958. Na Cartilha ele classifica os autores em três
correntes. Silvio Romero, Euclides da Cunha, Alberto Torres e Oliveira Viana
queriam formular teoria do tipo étnico brasileiro e não viam o negro como
exótico ou estranho à comunidade nacional. Com Nina Rodrigues, Arthur Ramos,
Gilberto Freyre, o negro se torna tema. Seus estudos atentam para o passado
do negro e/ou para as sobrevivências. Comparam-nos com outras corrente étnicas
acentuando as particularidades dos homens de cor. Por fim, Guerreiro considera
que com o Teatro Experimental do Negro se faz uma avaliação das relações
entre brancos e negros. Para
ele, a sociologia do negro nada mais é do que uma ideologia da brancura.
O negro é tido como problema porque a sociedade brasileira é europeizada;
o branco é o ideal, a norma, o valor contra os que são portadores de pele
escura. Considera fenômeno patológico a adoção do padrão estético europeu.
Isso expressa o caráter patológico da psicologia coletiva brasileira, a
adoção de um critério artificial, estranho à vida da sociedade. Daí falar
em “patologia social do branco brasileiro”, principalmente dos homens do
Norte e Nordeste. Para
avançar no exame do tema, é necessário colocar entre parênteses a ciência
social oficial, mesmo tratamento que defende em seu livro A redução sociológica (1958). É necessário tentar o entendimento a
partir de uma situação vital expressa em seu NIGER SUM, ou seja, no assumir-se
como negro. O problema do negro só existe se pensarmos que a sociedade deveria
ser de brancos. O negro é ingrediente normal da população – do povo brasileiro.
O negro é povo. Não é componente estranho de nossa demografia. Ao contrário,
é a sua mais importante matriz demográfica. Guerreiro
faz a denúncia do caráter patológico das atitudes do branco e da alienação
do próprio negro ao assumir as mesmas atitudes. Sua crítica atinge Arthur
Ramos, Gilberto Freyre e Edison Carneiro, além de Costa Pinto, de quem é
inimigo feroz (SOARES, 1993, p.21). O
negro é povo, e o povo irrompe na
história do Brasil a partir da formação do mercado interno, da industrialização,
do desenvolvimento. É a existência do povo que cria a nação. Os conflitos
de poder enfrentados por essa transformação obrigam a classe dominante a
assumir consciência das necessidades orgânicas da sociedade para se tornar
classe dirigente. Seus livros A crise
do poder no Brasil (1961) e Mito
e verdade da revolução brasileira (1963) estão expressando essa luta
e os conflitos entre correntes que disputam corações e mentes do povo, ou
melhor, de sua vanguarda. GR foi contra a internacionalização do processo
revolucionário. Rejeitou os modelos soviético, chinês, cubano ou qualquer
outro. Foi contra o marxismo-leninismo, essa “suposta ciência infalível”,
que se tornara a defesa intransigente das razões de Estado da URSS. Sua
sociologia militante, sua postura era de um “intelectual orgânico” do trabalhismo
brasileiro.
Considerações
finais
Guerreiro
Ramos, como já mencionei, está refletindo e pensando a questão do negro
a partir de sua própria experiência vital, está se assumindo como negro.
Faz isto em uma posição social de elite negra e ocupando um espaço nada
modesto na assessoria da Presidência da República. Ele declara que foi ali
que começou a entender os problemas da política brasileira, do Estado no
Brasil. A partir daí
trata o problema da população negra inserindo-a em sua compreensão
da questão, a mais datada, atrelada a uma conjuntura que não mais existe:
o Estado promotor do desenvolvimento e da democracia no Brasil. Por outro
lado, a seu favor, podemos dizer que foi fato a inserção de negros e mulatos
no aparelho de Estado, no sindicalismo, nas forças armadas, especialmente
Exército e Aeronáutica, no Banco do Brasil, na Petrobrás. A crise do Estado
brasileiro cortou esta corrente de promoção e mobilidade do negro. Guerreiro
foi suplente de deputado federal pelo PTB do antigo Estado da Guanabara
e assumiu a cadeira em 1963 na vaga de Brizola, eleito governador do Rio
Grande do Sul. Teve seu mandato cassado em 1964. Depois disto volta a analisar
e a escrever sobre administração, racionalidade, teoria das organizações.
Em 1966 foi para os Estados Unidos, onde ensinou e produziu artigos e livros.
Lá escreveu A nova ciência das organizações
– uma reconceituação da Riqueza das nações (1981). Ou seja, estava discutindo com Adam Smith; estava ocupado
em repensar o Ocidente decadente, estava questionando a categoria de tempo
se desenvolvera com o Iluminismo. Com
sua crítica à sociedade centrada no mercado, passa a desenvolver sua “teoria delimitativa dos sistemas”. Assim,
não sei o que ele estaria dizendo sobre as análises das relações raciais/étnicas
hoje no Brasil. Não sei se Guerreiro Ramos estaria concordando com a “política
de cotas” como medida legal capaz de diminuir as diferenças sociais entre
negros e brancos, principalmente se
tomarmos essa política como resultado da importação de categorias do mundo
norte-americano para a brasileiro, haja vista que a crítica ao transplante
de categorias era fundamental em sua sociologia, em sua proposta de “redução
sociológica”. Mas
certamente a valorização da negritude seria aplaudida, já que ele já enfatizara
a necessidade de analisar a psicologia coletiva e a estética tomando-as como questões fundamentais da vida do homem
de cor e da sociedade brasileira. Uma
outra questão que ainda precisa ser melhor analisada é a relação entre “raça”
e o pensamento da AIB, como nos mostra Marcos Chor Maio (1992). Guerreiro
Ramos e Abdias do Nascimento foram integralistas em sua juventude. Conheço
outras famílias de afro-descendentes que tiveram grande mobilidade social
e cujo pai também pertenceu à AIB na juventude. Os integralistas, ou parte
deles, podem ter sido contra os judeus, mas não contra os negros na sociedade
brasileira. Isto vale apenas para mostrar a complexidade da sociedade brasileira,
ou, como já foi dito: “O Brasil não é para principiantes!”. A trajetória, a palavra, a obra de
Guerreiro ainda precisam ser melhor conhecidas e estudadas, já que fornecem
um exemplo significativo dos dilemas intelectuais e práticos da sociedade
brasileira. É necessário um acompanhamento “fino” da trajetória individual deste intelectual, de sua geração e de seus
diferentes companheiros de viagem. É preciso conhecer as obras, instituições,
revistas, editoras, assim como os movimentos nos quais o autor se integra.
Igualmente importante é a análise das conjunturas políticas regional, nacional
e internacional, extremamente mutáveis nos anos 30, 40 e 50 do século XX.
Só assim é possível escapar de visões simplistas, de fácil entendimento,
mas improdutivas para a compreensão das relações entre cultura e política,
entre a trajetória do indivíduo e da sociedade.
Bibliografia
BARIANI JUNIOR,
Edison. A Sociologia no Brasil : uma batalha, duas trajetórias (Florestan
Fernandes e Guerreiro Ramos). UNESP/Araraquara, 2003. Dissertação de mestrado. CRUZ, José
Saraiva. Guerreiro Ramos e a construção ideológica do nacionalismo desenvolvimentista.
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, UERJ, 2002, Dissertação de
mestrado. MAIO, Marcos
Chor. Nem Rothschil, nem Trotsky;
o pensamento anti-semita de Gustavo Barroso. Rio de Janeiro, Imago,
1993. OLIVEIRA,
Lucia Lippi. A Sociologia do Guerreiro.
Rio de Janeiro, UFRJ, 1995. ____. “A
redescoberta do Brasil nos anos 50: entre o projeto político e o rigor acadêmico”.
In: MADEIRA, Angélica e VELOSO, Mariza (orgs). Descobertas do Brasil. Brasília, UNB, 2001. P. 139-161. RAMOS, Guerreiro.
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A. Alves. A sociologia crítica de
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Copy&Arte, 1993. TOTA, Antônio
Pedro. O imperialismo sedutor; a americanização
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