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Roger Bastide e Florestan Fernandes: duas perspectivas sobre as relações raciais na metrópole, dois enfoques sobre a modernização brasileira

 

Fernanda Arêas Peixoto (Antropologia/ USP)

(Versão Preliminar, favor não citar nem reproduzir)

 

O objetivo desta comunicação é pensar o projeto UNESCO em São Paulo, menos a partir de sua história ou das injunções institucionais que definiram as investigações em solo paulista, mas sobretudo pela análise dos textos de Roger Bastide e Florestan Fernandes produzidos no interior do projeto [1] . A análise desse material mostra-se proveitosa, antes de tudo, porque permite elucidar divergências existentes no quinhão paulista da pesquisa, lido, durante algum tempo, como bloco unívoco [2] . O foco da análise de Florestan recai preferencialmente sobre o processo de integração do negro na estrutura social e econômica em vias de transformação, e sobre a luta política dos negros. O de Bastide, por sua vez, incide preferencialmente sobre o plano das mentalidades e sobre as formas de manifestação do preconceito na vida social.

Tal diferença observada no trato das relações raciais na metrópole ganha novos contornos se considerada ao lado de outros escritos dos autores, especialmente daqueles voltados para o folclore nacional. Por meio do rápido cotejo da produção de Bastide e Florestan sobre folclore e relações raciais é possível entrever que as pesquisas sobre as relações raciais na cidade de São Paulo, assim como a análise do material folclórico, permitem que os autores enfrentem a problemática mais ampla da modernização brasileira, seus dilemas e impasses. Este é precisamente o fio da leitura aqui proposta. Pensar, em primeiro lugar, as perspectivas diversas que informam as leituras realizadas por Bastide e Florestan sobre as relações raciais na metrópole; em segundo, como elas se articulam à produção mais ampla dos autores e, finalmente, de que maneira os textos que escreveram sobre relações raciais no bojo do projeto UNESCO interpelam o processo modernizador brasileiro.

 

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A obra e a carreira de Florestan vêm sendo lidas pelos estudiosos a partir de classificações diversas. Antonio Candido identifica três momentos da trajetória de Florestan: os anos 40, período da “construção do saber”; os anos 50, momento de “aplicação do saber ao mundo” e a década de 60, quando o saber se converte em “arma de combate [3] . Maria Arminda do N. Arruda, por sua vez, delimita quatro fases na obra do sociólogo: o período de formação (estudos sobre folclore e mestrado sobre a organização social Tupinambá); o momento de nascimento do scholar - que inclui a pesquisa sobre brancos e negros em São Paulo, o doutorado sobre a função social da guerra na sociedade Tupinambá e Fundamentos empíricos da explicação sociológica, 1959; uma fase de transição, quando produz A sociologia numa era de revolução industrial, 1962 e A integração do negro na sociedade de classes, 1964; finalmente, um quarto momento que corresponde aos seus últimos trabalhos de formato mais militante, publicados nas décadas de 70 e 80 [4] . Otávio Ianni – menos amparado pela cronologia mas sobretudo por uma visão topográfica da obra de Florestan pensada como “uma nova interpretação do Brasil”-, localiza na produção do autor três grandes eixos de pesquisa: os estudos sobre a colonização, aqueles sobre a escravidão e as análises da revolução burguesa no Brasil [5] .

            Nas leituras feitas parece reinar um certo consenso a respeito da década de 1950 e das pesquisas sobre relações raciais como representando uma nova etapa na obra e na carreira do sociólogo [6] . Florestan em seus depoimentos reafirma a importância da década para o florescimento do pesquisador:

            “Para mim, portanto, a década de 40 foi para o intelectual uma década de consolidação, especialmente quando se pensa em termos da universidade; a década de 50 é uma época de florescimento, de auto-afirmação (...). As coisas que tiveram maior importância na minha obra como investigador se relacionam com pesquisas feitas na década de 40 (como a investigação sobre o folclore paulista, a pesquisa de reconstrução histórica sobre os tupinambá e várias outras, de menor envergadura) ou com a pesquisa sobre relações raciais em São Paulo, feita em 1951-52, em colaboração com Roger Bastide (e suplementada por mim em 1954)” [7] .

            Se os analistas e o próprio Florestan chamam a atenção para o lugar decisivo da pesquisa sobre relações raciais na formação do pesquisador e na definição de uma agenda de temas e problemas a serem desenvolvidos na obra futura, é preciso considerar que essa pesquisa específica permite a Florestan retomar e redimensionar tópicos já contemplados quando de seus trabalhos dos anos de 1940 sobre o folclore. Quer dizer, ainda que consideradas como início de uma nova fase na obra e trajetória de Florestan, as pesquisas sobre relações raciais podem ser vistas também como a síntese de preocupações anteriores esboçadas [8] .

            No caso de Bastide, por sua vez, um rápido passar de olhos pelo seu itinerário e produção permite aferir que os textos realizados para o projeto UNESCO correspondem à última fase de seu período brasileiro (ele retorna à França em 1954), quando parte significativa de suas pesquisas e estudos sobre o país já havia sido concluída. Esse período coincide com o momento de elaboração da tese de doutorado sobre as religiões africanas no Brasil, defendida em 1958, e com uma época marcada por idas e vindas entre França e Brasil, iniciada em 1951. Os textos escritos para o projeto, ainda que referidos a um material empírico inédito, podem ser lidos como uma forma de exercício, a partir de novos materiais, de perspectivas já ensaiadas e de retomada de problemas anteriormente levantados.

A consideração dos diferentes estudos realizados no país sob o patrocínio da UNESCO – propósito desta mesa – revela as perspectivas díspares que orientaram as pesquisas, do ponto de vista teórico, metodológico e dos resultados obtidos. Mas divergências existiram não apenas entre as diversas regiões do país. Mesmo no interior da face paulista do projeto é perceptível que Bastide, coordenador do projeto e Florestan, seu braço direito na condução do trabalho, longe estavam do acordo de idéias. O projeto escrito em 1951 por Florestan Fernandes, “O preconceito racial em São Paulo”, visava justamente o estabelecimento de um consenso intelectual mínimo entre os coordenadores, como afirma o sociólogo paulista. Em suas palavras: “Elaborei o projeto de pesquisa com vistas a acertar os ponteiros, já que muita coisa ele via de um jeito e eu via de outro. Elaborando o projeto tornava-se possível unificar as nossas perspectivas” [9] .

Desde o início, o trabalho foi de fato dividido entre eles, cada qual ficando encarregado da redação de relatórios específicos, como fica patente pela edição dos resultados das investigações. Florestan se responsabiliza pela análise da posição do negro na histórica econômica de São Paulo (“Do escravo ao cidadão”), pelo exame do preconceito em uma estrutura social que se modifica (“Cor e estrutura social em mudança”) e pela avaliação das reações ao preconceito de cor (“A luta contra o preconceito de cor”). Bastide se dedica a pensar as manifestações e os efeitos do preconceito em diversos grupos e classes sociais (“Manifestações do preconceito de cor” e “Efeitos do preconceito de cor”).

            No artigo que abre o volume, “Do escravo ao cidadão”, Florestan acompanha a história da economia paulista - a escravidão do índio e do africano; os efeitos da decadência das minas no estado; o desenvolvimento tardio e lento da grande lavoura no século XIX - com ênfase no lugar ocupado pelo negro nos vários momentos dessa história. O ponto de partida é o processo econômico e o seu objetivo central, observar como este repercute na constituição do agrupamento social, a cidade de São Paulo, segundo ele, o seu verdadeiro “objeto da análise [10] .

            A transição do trabalho escravo para o trabalho livre ocupa papel destacado no amplo cenário pintado por Florestan. Com o fim da escravidão, indica ele, o elemento negro perde a sua posição no sistema econômico de São Paulo e, o que é mais dramático, é reabsorvido muito lentamente pelo novo sistema de trabalho (a partir das ocupações pior remuneradas) devido à “herança negativa deixada pela escravidão”: “A escravidão degradara a tal ponto o seu agente humano de trabalho, que tornara a sua recuperação econômica extremamente penosa, difícil e demorada” [11] . Se isso é verdade, o crescimento acelerado da cidade e a expansão da indústria abre novas perspectivas para a ascensão econômica dos negros, o que é acompanhado por uma alteração no plano das mentalidades, pela incorporação dos novos ideais de vida urbanos. A transição do regime escravocrata para o regime de classes e a assimilação do negro à sociedade de classes aparecem como processos morosos e extremamente difíceis pelo relato de Florestan. Só que ele acredita estar presenciando ao início dessa nova fase da história:

            “Esta transição parece ter entrado em sua fase inicial em nossos dias. A proletarização dos indivíduos de cor e a integração concomitante de uma porção deles às classes médias marcam o fim de um período e o começo de uma nova era na história do negro na vida econômica de São Paulo. Estamos diante de um processo de recuperação econômica desse elemento, de sua reabsorção pelas condições materiais e morais de existência social vigentes contemporaneamente na cidade [12] .

            Se no primeiro capítulo do livro, Florestan se detém sobre a situação econômica do negro, no segundo, também assinado por ele (“Cor e estrutura social”), volta-se para as implicações sociológicas da análise anterior: em primeiro lugar, na seleção de mão-de-obra os critérios dominantes não se relacionam à cor ou raça, mas a razões de ordem estritamente econômica; em segundo, a estratificação social de São Paulo nunca foi produto de diferenças raciais (embora uma estratificação étnica ou racial se superponha àquela social); finalmente, a escravidão selecionou a cor como marca social, como símbolo definidor de posição social.

            A tese básica defendida neste capítulo é que a discriminação racial não é praticada em função de “ojerizas” associadas a diferenças raciais, mas fruto das desigualdades sociais, produzidas em contexto escravista. Assim, o preconceito e a discriminação são explicados como meios de preservação da ordem social escravocrata.

            Com a desagregação da antiga ordem, mostra ele, não foi observada (ainda) uma alteração substantiva na posição social de negros e mestiços na estrutura social da cidade de São Paulo; subsistem estereótipos relacionados às diferenças raciais e antigos padrões assimétricos de tratamento. De qualquer modo, a “nova configuração social da vida, industrial e urbana”, que vem acompanhada pela gestação de uma nova ideologia, permite entrever “tendências emergentes” indicadoras da prevalência progressiva de “princípios de integração estrutural” sobre diferenças raciais e étnicas. O que não significa afirmar, diz Florestan, a ausência do preconceito na ordem social futura.

            “O que se evidencia é que se está constituindo uma nova constelação de relações raciais, na qual a integração social não sofrerá, provavelmente, uma influência tão intensa de determinações socioculturais ligadas com as diferenças raciais e com as gradações da cor da pele, como ocorreu no passado [13] .

            No último capítulo do volume, “A luta contra o preconceito de cor”,  Florestan analisa os movimentos sociais negros e a reação legal contra o preconceito, avaliando sua repercussão no meio negro [14] . Da análise conclui que os movimentos negros de São Paulo se originam de causas sociais e correspondem a “necessidades sociais bem definidas”. Além disso, Florestan avalia que a principal dificuldade desses movimentos - Frente Negra e Associação dos Negros Brasileiros, por exemplo - reside na pequena contribuição que trazem ao tratamento de “problemas práticos” da população de cor da cidade de São Paulo. Na segunda parte do artigo, coleta argumentos contra e a favor da lei Afonso Arinos, sublinhando a variação de atitudes diante da legislação, produto em boa medida da situação heterogênea da população negra e mestiça em São Paulo.

            Os dois capítulos escritos por Bastide para o volume (“Manifestações do preconceito de cor” e “Efeitos do preconceito de cor”) analisam o preconceito tendo por base atitudes e comportamentos de brancos e negros, de acordo com o seu pertencimento a diferentes grupos e classes sociais. Antes de mais nada, mostra Bastide, é preciso observar que a industrialização e a urbanização da cidade de São Paulo não significam rompimento com o passado; nela subsistem “subterraneamente, como num edifício em conserto, partes inteiras da antiga sociedade tradicional”. Esta sociedade “não cristalizada”, portanto, que não é puramente capitalista, nem mais senhorial, se caracteriza pelo choque de valores, dos velhos (dos tempos da escravatura) com os novos [15] . Aí reside justamente o interesse do exame do caso de São Paulo, ele aponta desde a Introdução: a convivência de “sobrevivências da sociedade escravista e inovações da sociedade capitalista” (pp. 13). Esta situação particular interfere nos modos de expressão - absolutamente heterogêneos - do preconceito de cor entre a população urbana de São Paulo. Os que negam o preconceito, mostra Bastide, reagem por uma atitude de fidelidade ao ideal da democracia racial; ideal este, continua ele que “impede as manifestações demasiado brutais, disfarça a raça sob a classe, limita os perigos de um conflito aberto [16] . Disto resulta um preconceito velado, “que nem sempre ousa dizer o seu nome”, e a formação de barreiras “ocultas” que segregam e discriminam.

            O inquérito realizado com representantes de famílias tradicionais que conheceram a escravatura, com diferentes grupos imigrantes e com representantes de classes sociais distintas leva Bastide a discernir, de modo mais contundente que Florestan, um “preconceito de cor independente do de classe”. Se na sociedade brasileira - e na paulista, foco da pesquisa - o preconceito de cor tende a se confundir com o de classe, não é possível generalizar o fenômeno: “Assim, a cor não se confunde completamente com a classe, dentro da própria classe desempenha um papel discriminador [17] . No interior deste quadro, a miscigenação não significa ausência de preconceito, ao contrário, algumas vezes torna-o mais visível [18] .

            As dificuldades enfrentadas pelos negros para se organizarem politicamente devem ser entendidas nesse contexto particular, no qual não há uma “ideologia de revolta”, e mesmo entre aqueles que lutam pela constituição de uma ideologia negra, observa-se, segundo Bastide, uma ambivalência ideológica, uma oscilação entre o orgulho da cor e um sentimento de inferioridade, que resulta na adoção do ponto de vista branco. A encruzilhada que se coloca para o negro na sociedade brasileira se traduz na ambivalência entre a aceitação da sociedade de classes (e a luta pela ascensão econômica e social) ou a entrada num movimento reivindicatório, como aqueles das sociedades norte-americanas. Ou, dito de outro modo, é de indecisão entre “a miscigenação e o racismo” que se trata [19] .

            Diante do exposto, não parece difícil apontar as diferentes perspectivas adotadas por Florestan e Bastide diante da temática das relações raciais. Embora partam do pressuposto da existência de uma dupla ordem operando na cidade de São Paulo em foco - a antiga ordem senhorial-escravista e a ordem capitalista em formação -, olham para esta estrutura social móvel de ângulos distintos. Florestan discute o árduo processo de integração do negro na estrutura social e econômica em vias de transformação - a lenta transformação do escravo em cidadão, as dificuldades de ascensão do homem de cor - e a incipiente luta política dos negros. Bastide se concentra nos comportamentos ambivalentes de negros e brancos em relação ao preconceito, orientados por “estereótipos recalcados que agem nas fronteiras indecisas do inconsciente”.

Trabalhando mais de perto com o nível dos valores e das ideologias, em sua relação permanente com a estrutura social, Bastide discute o descompasso existente nos ritmos das mudanças nos dois níveis: as alterações de ordem estrutural conhecem um movimento mais acelerado do que aquele observado no plano das mentalidades. Seus textos possuem clara inflexão antropológica que se desenha pela atenção concedida à dimensão individual – à “personalidade” e aos “temperamentos individuais” – e que se relacionam aos instrumentos de pesquisa por ele privilegiados: além de questionários e entrevistas formais, biografias e observações registradas em diários de campo.

            A reflexão de Florestan sobre os processos sociais de mudança e sobre o caráter particular da modernização brasileira, com base no caso de São Paulo, tem início com as pesquisas sobre o folclore, iniciadas em 1941 por ocasião de um trabalho de curso feito para Bastide sobre as trocinhas do Bom Retiro [20] . A esse primeiro trabalho sucederam-se outros escritos produzidos entre 1940 e 1960, reunidos nos volumes Folclore e mudança social na cidade de São Paulo (1961) e O folclore em questão (1978). Da leitura dessa produção emergem dois problemas centrais. O primeiro diz respeito à contribuição do sociólogo aos estudos sobre o tema (problema do qual me ocupei em outra ocasião [21] sobre o qual não vou me deter) e o segundo refere-se à mudança social. Pergunta-se ele: o que ocorre com o folclore em uma cidade que se transforma tão rapidamente?. Além disso, qual o seu lugar e função num contexto de transformações tão aceleradas? A questão que o analista tem diante de si é o do confronto (“quase físico”) entre a antiga “cultura de folk”, em plena desagregação, e a “cultura civilizada”, em simultâneo processo de emergência e expansão. Como se dá (ou não) a renovação do folclore na sociedade urbana? Que limites se colocam para que sua reintegração se efetive?

            A análise dos materiais folclóricos – que não vamos resumir aqui por economia de tempo – permitem entrever os elos, sempre problemáticos, entre passado e futuro, entre tradição e mudança. A “revolução urbana” que atravessa a cidade de São Paulo tem como conseqüência primeira, segundo ele, a desagregação da cultura popular que fica impossibilitada de exercer influência decisiva sobre a “civilização industrial e urbana”. O que não significa descartar completamente a presença da cultura tradicional na ordem urbana, mas de sublinhar sua mínima participação [22] . O folclore empobrecido, passível de ser pinçado aqui e ali na cidade de São Paulo, só tem chances de permanecer se lograr reintegrar-se à sociedade urbana. Tais reintegrações é que permitirão a manutenção do saber popular no novo contexto; saber este responsável pela “conversão do homem rústico brasileiro em urbanita e em participante da sociedade de classes” [23] , na medida em que suaviza a passagem da ordem tradicional – baseada na cooperação e no paternalismo – para o mundo moderno, regido pelo contrato, pela competição e pelo individualismo.

            A visada de Florestan sobre o folclore não se confunde com o olhar sobre o passado. Ao contrário, trata-se de analisar no presente as imbricações entre os diferentes “tempos”, sociais e culturais, para projetar os contornos da sociedade moderna, de corte burguês. Não parece exagerado enxergar nesses estudos de juventude o esboço de uma indagação central em sua obra, que se apresenta de forma mais acabada quando das pesquisas sobre relações raciais em São Paulo, e que pode ser traduzida na fórmula: “quando desaparece o estamento e surge a classe?” [24] . O interesse pelo processo de formação da sociedade de classes no Brasil aparece, ainda timidamente, na produção inicial sobre o folclore e de forma  mais decidida quando do exame das relações raciais. Ao olhar para as sobrevivências do passado, é sobre a mudança e os processos instituintes da civilização burguesa entre nós que ele coloca a sua lupa.

Nos primeiros estudos que realizou sobre o negro, as questões esboçadas com base no material folclórico ganham contornos mais definidos, ancorando-se na análise de agentes sociais específicos. Na obra dos anos de 1950, encontram-se melhor traçadas uma perspectiva e uma problemática - o “dilema racial brasileiro”- que serão desdobradas na obra futura, a partir de A integração do negro na sociedade de classes (1965), quando Florestan retoma o material da pesquisa da UNESCO. Em Brancos e negros em São Paulo (1958), quando da apresentação dos resultados do projeto [25] , Florestan Fernandes coloca mais uma vez o seu foco na cidade de São Paulo – seu “verdadeiro objeto” - e sobre uma estrutura social em mudança, delineando questões centrais em suas interpretações do negro e da sociedade brasileira: a formação da sociedade burguesa entre nós (a constituição da “ordem social competitiva”); a integração do negro na sociedade de classes (o problema da cidadania); as condições de emergência do povo na história brasileira [26] .

            A indicação de continuidades entre as reflexões realizadas por Florestan Fernandes nas décadas de 1950 e 1960 não significa o desconhecimento de diferenças que separam as obras. No livro de 1965, ele enfatiza mais claramente a constituição problemática da cidadania em função da exclusão social e da marginalidade do negro na sociedade brasileira. O exame dessas dimensões coloca o intérprete diante dos dilemas da própria modernização da sociedade brasileira e dos impasses colocados para a constituição da sociedade de classes no Brasil, em função da persistência de padrões sociais tradicionais, resquícios da antiga ordem patrimonial [27] . Aí também analisa de perto o mito da democracia racial - caracterizado como ideologia dificultadora do reconhecimento do racismo e da discriminação entre nós - que não aparece nomeado por ele nos trabalhos da década anterior.

            Ao apresentar suas análises a partir do material levantado para a UNESCO, Florestan anuncia este repertório de problemas, mas em clave um pouco diversa. As dificuldades para a integração do negro na sociedade de classes em formação e os entraves tradicionais que se colocam para a modernização brasileira costuram a análise, é verdade. Mas, nesse momento, o autor aposta na solução desses problemas com a progressiva assimilação dos negros, com a alteração das mentalidades - cada vez mais orientadas pelos novos padrões urbanos e burgueses de sociabilidade - e com prevalência da integração sobre as diferenças raciais. As “tendências emergentes”, mencionadas antes, apontam no sentido da superação dos vestígios tradicionais.

            O tom francamente otimista da análise  - que se coaduna com o ponto de vista marxista de interpretação do sentido redentor da história e da crença na modernização como suporte da consolidação da ordem democrática - não leva Florestan a afirmar a total eliminação dos preconceitos no futuro. Mas estes tenderiam a ser atenuados em função do estabelecimento da ordem social moderna e da assimilação dos negros à sociedade de classes. Afinal, o problema racial no Brasil é lido nesse momento da obra de Florestan sobretudo como um problema de classe social.

            Não parece difícil notar o lugar decisivo da pesquisa sobre relações raciais na consolidação de temas e problemas na obra futura de Florestan, ainda que se observe a alteração de pontos de vista na passagem dos anos de 1950 para os de 1960: o tom otimista dos textos do projeto UNESCO é substituído por uma atitude cética em A integração do negro na sociedade de classes.

 

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            Embora tenha havido uma certa divisão do trabalho entre os dois coordenadores do projeto UNESCO em São Paulo, como dito antes - Florestan mais preocupado com a compreensão da estrutura social e Bastide voltado para os comportamentos e mentalidades -, não devemos estabelecer um divisor rígido entre esses campos e muito menos entre os seus autores. Nos textos escritos por Florestan observa-se uma atenção à dimensão psíquico-social, à esfera cultural, que será retomada em textos posteriores, o que seguramente reflete a convivência intelectual com Bastide, seu ”principal professor” e um dos seus “melhores amigos”, como ele não se cansa de repetir [28] .

            A análise do projeto realizado sob os auspícios da UNESCO mostra-se proveitosa, como dito, porque permite elucidar as dissonâncias existentes no quinhão paulista da pesquisa. Lendo os textos produzidos pelo sociólogo francês para o projeto, vemos que o tom otimista das previsões de Florestan não encontra eco em suas formulações, mesmo que ele considere notáveis a maior aceitação dos negros pelas novas gerações - o que revela uma mudança positiva de mentalidade - e afirme, já na Introdução à obra, não ser a vida dos negros brasileiros uma “perpétua tragédia” [29] . Além disso, em seus artigos, ao contrário do que ocorre nos textos de Florestan, o preconceito de cor não se reduz a um problema de classe social [30] . O mito da democracia racial, por sua vez, é nomeado e problematizado de modo explícito em seus textos.

Mas a diferença maior que se coloca entre as reflexões por eles realizadas sobre as relações raciais na cidade de São Paulo reside no modo como encaram os nexos entre o “velho”  e o “novo” na sociedade brasileira. Em Bastide, a ênfase da análise recai sobretudo no modo como os elementos da sociedade tradicional persistem no mundo moderno, e não sobre os efeitos disruptivos da mudança propriamente dita. E mais: não se nota uma leitura desse legado tradicional como entrave à modernização.

Tal perspectiva se evidencia nos textos que escreveu sobre o folclore nacional, reunidos no volume Sociologia do folclore brasileiro (1959). Aí, o partido sociológico adotado leva a análise em direções distintas daquelas realizadas por Florestan. Interessa a Bastide sobretudo acompanhar a formação de um folclore nacional a partir das contribuições africana, ameríndia e européia, o que coloca o problema da formação da cultura brasileira e do sincretismo, enfrentados pelo intérprete quando do exame das artes, do barroco e das religiões. Sem retomar no detalhe o percurso da análise, é possível resumi-la dizendo que Bastide descreve como o processo complexo de formação do folclore entre nós, se dá pela justaposição de fragmentos pertencentes a tradições culturais díspares. Longe do encompassamento de uma tradição – ou civilização – pela outra, nota-se a permanência de diferentes heranças, portuguesa, ameríndia e africana, num composto folclórico essencialmente híbrido.

A análise do composto híbrido impõe, é bom lembrar, o exame de suas relações com a estrutura social, na qual se observa, desde a sociedade colonial-escravista, uma relação assimétrica entre as diferentes civilizações em contato. O que interessa a Bastide ressaltar é como a despeito da dominação branca, observa-se a permanência do folclore ameríndio e, sobretudo, do africano que furam os controles, imiscuindo-se nas frestas da sociedade colonial.

As distintas ênfases de Florestan e Bastide quando do trato das relações entre cultura tradicional e modernização parecem evidentes. Enquanto Florestan sublinha a mudança e o papel tímido da tradição nesse processo, Bastide destaca sobretudo a resistência das tradições em meio a mudanças profundas que abalaram a sociedade brasileira. Ao diferentes pontos de vista sobre as relações entre tradição e mudança – ou entre o tradicional e o moderno – permitem flagrar inclusive posicionamentos políticos divergentes: em Florestan, nesse momento, observa-se uma clara aposta no futuro e na modernização da sociedade brasileira, traduzida no modo como ele projeta, seja nos textos sobre folclore seja naqueles sobre as relações raciais, a constituição de uma ordem urbana moderna, liberta dos ranços tradicionais da sociedade escravista. Em Bastide, mais claramente se desenha, já nos anos de 1950, uma postura crítica ao processo modernizador em curso.

            Não se deve deduzir um passadismo conservador de Bastide, espécie de aversão ao moderno - que pautado pelas transformações aceleradas, tende a comprometer (e perverter) a integridade das culturas tradicionais - como sugere parte de seus críticos [31] . O que se depreende da leitura dos textos de Bastide sobre as relações raciais, aqui brevemente examinados, e também de seus escritos sobre folclore – além de vários outros sobre arte e religião - é o seu ceticismo em relação aos processos modernizadores, que ele vê com olhos extremamente críticos em diversas fases de sua obra [32] .

            A breve comparação dos textos de Roger Bastide e Florestan Fernandes escritos quando do projeto UNESCO permite entrever, entre outras coisas, a problemática da modernização e de suas especificidades brasileiras. O caráter problemático do processo modernizador no Brasil será acompanhado por Florestan na obra futura, a partir de outros pontos de vista e de novos aportes teóricos. Na produção de Roger Bastide persiste o interesse pelos “nichos” resistentes à modernização.

           

 



[1] Até porque uma história minuciosa da implantação do projeto Unesco – seu contexto e principais atores - já foi traçada por Marcos Chor Maio. A história do projeto UNESCO: estudos raciais e ciências sociais no Brasil. Tese de doutorado, IUPERJ, 1997. Lembro ainda que não tratarei aqui dos demais trabalhos produzidos em São Paulo no interior do projeto, por exemplo os de Oracy Nogueira, Virgínia Leone Bicudo e Aniela Ginsberg, que mereceriam análise à parte.

 

[2]   O trabalho de Marcos Chor Maio, idem, é responsável pela revisão desse tipo de ponto de vista.

 

[3] Antonio Candido, “Amizade com Florestan” In: Maria Angela D’Incao (org). O saber militante, São Paulo, Paz e Terra/EDUNESP, 1987, p. 34.

 

[4] “A sociologia no Brasil: Florestan Fernandes e a ‘escola paulista’ de sociologia” In: Miceli (org), História das ciências sociais no Brasil, vol II, São Paulo, FAPESP/ Editora Sumaré, 1995, p. 174/175.

 

[5] “Florestan Fernandes e a formação da sociologia brasileira” In: Otávio Ianni (org). Florestan Fernandes, São Paulo, Ática, 1986.

 

[6] Claude Lépine arrisca uma periodização dos trabalhos de Florestan sobre o negro, que se iniciaria já na década de 40, quando ele localiza o preconceito racial no material folclórico, fonte de produção de estereótipos. As pesquisas realizadas com Roger Bastide na década de 50 inaugurariam uma segunda etapa nesta produção. “Imagem do negro brasileiro” In: O saber militante, op. cit., p. 130/131.

 

[7] A condição do sociólogo, op.cit., p. 50. Em “Florestan Fernandes: esboço de uma trajetória” (BIB, Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1995), ele afirma na mesma direção: “Essa pesquisa (da Unesco) foi uma revolução na minha vida intelectual...”, p. 20.

 

[8] Lembremos que Florestan Fernandes já havia iniciado investigações sobre o negro, em geral associadas aos trabalhos sobre folclore que realizou para os cursos de antropologia da USP, ministrados por Emílio Willems e Roger Bastide, como por exemplo “Congadas e batuques em Sorocaba”, Sociologia, 5 (3), 1943.

 

[9] “Florestan Fernandes: esboço de uma trajetória”, op. cit., p.20. Cf. também, Florestan, “25 anos depois: o negro na era atual” In:_ Circuito fechado, São Paulo, Hucitec, 1976, p. 64.

 

[10] Bastide e Florestan, Brancos e negros em São Paulo, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1971, 3° edição, p. 41 (grifo meu).

 

[11] Idem, p. 63.

 

[12] Idem, p. 80.

 

[13] Idem, p. 144.

 

[14] Vale lembrar que durante a pesquisa, Bastide e Florestan contaram com a colaboração de vários integrantes dos movimentos negros da época e de intelectuais negros. As relações com as lideranças negras se estabeleceram fundamentalmente por intermédio de Roger Bastide, e de contatos por ele estabelecidos em pesquisas anteriores.

 

[15] Idem, p. 165.

 

[16] Idem, p. 165.

 

[17] Idem, p. 138.

 

[18] Florestan também insiste sobre este ponto: “A tendência a defini-la (a miscigenação) como índice de ausência de preconceitos... não encontra comprovação analítica consistente”. Cf. “Cor e estrutura social em mudança”, op. cit., p. 122.

 

[19] Cf. “Efeitos do preconceito de cor”. Na parte final deste texto, Bastide elenca rapidamente os “orgãos de fiscalização social”, que atuam no sentido de impedir que o estado de tensão racial se apresente de forma violenta; são eles: a Igreja e a política.

 

[20] Sobre as relações de Florestan com o folclore e com os folcloristas, cf. Luís  Rodolfo Vilhena, “Os intelectuais regionais: o folclore e o campo das ciências sociais nos anos 50”, Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, Anpocs, n. 32, 1996

 

[21] Cf. Fernanda Peixoto. Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide, São Paulo, FAPESP/ EDUSP, 2000, sobretudo capítulo III.

 

[22] Cf. “O folclore em uma cidade em mudança” In: Folclore e mudança social social na cidade de São Paulo, Petrópolis, Vozes, 1979, 2a edição, p.30

 

[23] Idem, p. 28.

 

[24] Florestan Fernandes, “História e histórias”, Novos estudos, n. 42, São Paulo, CEBRAP, 1995.

[25]   A edição de 1958, na qual me apoiei, corresponde à segunda edição da obra, montada exclusivamente com textos de Bastide e Florestan. A primeira edição do conjunto dos trabalhos realizados sob a égide do projeto UNESCO em São Paulo vem à luz em 1955, pela editora Anhembi, com o título Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo.

 

[26] Cf. Élide Rugai Bastos, “A questão racial e a revolução burguesa no Brasil” e Claude Lépine, “A imagem do negro brasileiro” In: Maria Angela D’Incao (org). O saber militante, São Paulo, Paz e Terra/ EDUNESP, 1987.

 

[27] Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, São Paulo, editora Dominus/USP, 1965, 2 vol. Para uma análise desta obra cf. Maria Arminda do Nascimento Arruda, “Dilemas do Brasil moderno: a questão racial na obra de Florestan Fernandes” In: Marcos Chor Maio e Ricardo Ventura (org). Raça, ciência e sociedade, Rio de Janeiro, Editora da Fiocruz/ Centro Cultural Banco do Brasil, 1996.

 

[28] Ver Florestan Fernandes,  “Em busca de uma sociologia crítica e militante” In:_ A sociologia no Brasil, Petrópolis, Vozes, 1977, p. 162.

 

[29] Bastide, Brancos e negros em São Paulo, op. cit., p. 17.

 

[30] Para refinar esta discussão, seria preciso realizar um exame mais detido da noção de classe social com a qual opera Florestan nesse momento de sua obra, o que foge aos nossos propósitos. Ainda que inspirado pelo marxismo, não haveria aí algum eco do sentido de classe, tal como empregado pelas ciências sociais americanas nos anos 30, que vêem-na como relação social aberta - e portanto valorada positivamente - oposta à casta, vista como camada fechada? Cf. Antonio Sérgio Guimarães, “Cor, classes e status nos estudos de Pierson, Azevedo e Harris na Bahia: 1940-1960” In: Maio & Santos (orgs). Raça, ciência e sociedade, op. cit.

 

[31] Cf., entre outros, a leitura de Peter Fry em “Gallus africanus est” In: Olga von Simsom (org). Revisitando terra de contrastes: a atualidade da obra de Roger Bastide, São Paulo, CERU/USP, 1986, que sublinha ser o interesse de Bastide pela África explicável pelo seu apego ao Brasil arcaico. A afirmação de Luís Rodolfo sobre a preocupação de Bastide com o nosso passado neolítico nos estudos sobre o folclore, parece seguir direção semelhante. Cf. Projeto e missão, Rio de Janeiro, FUNARTE/ FGV, 1997.

 

[32] Renato Ortiz em “Roger Bastide: as utopias e o outro” (Cultura Vozes, n. 5, 1993) assinala a posição crítica que Bastide assume em face da modernidade, manifestada em grandes obras e mesmo em pequenos textos, como no artigo “Macunaíma em Paris”, op. cit..Chama atenção também para o equívoco de tomar esta posição crítica, e essencialmente utópica, como romântica.