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"Contraponto baiano do açúcar e do petróleo": o impacto da modernidade e da globalização navida social e nas relações raciais no Recôncavo - o caso de S. Francisco do Conde 
por Livio Sansone (UFBA)

Fazem 50 anos que uma famosa realização da UNESCO revolucionou a prática de pesquisa, tanto quanto as representações cientificas sobre as relações raciais, no Brasil.

As pesquisas de comunidade, assim como os levantamentos de cunho mais quantitativo – por sua qualidade intrínseca, mas também por sua relevância social e política–, se tornaram paradigmáticas nas ciências sociais brasileira e, durante alguns anos, ajudaram a colocar o Brasil no bojo das discussões internacionais sobre “raça” e “etnicidade”.

Aproveitando-se hoje, por um lado, do fato de que 50 anos parecem ser um período justo para medir mudanças, autenticas e típicas de uma época, nos comportamentos – como aquelas que dizem respeito as noções de cor e raça – e, por outro lado, da nova abertura que existente neste país no que diz respeito ao tema das relações raciais, parece oportuno o momento de voltar a levantar questões fundamentais – como aquelas que dizem respeito ao estado da nação- realizando-se uma pesquisa que possa tomar por modelo àquela desencadeada pelo famoso projeto UNESCO.

O grande projeto de pesquisa da UNESCO, em colaboração com a Columbia University e a nascente UFBA, nos anos 50, escolheu na Bahia cincos contextos: as 'elites de cor' na cidade de Salvador e mais quatro comunidades no interior do Estado, naqueles anos definidas como rurais. Eram comunidades que representariam as diferentes regiões geográficas e sociais da Bahia assim como graus diferentes de 'desenvolvimento'. Tratava-se de fato de pesquisar como e ate' que ponto a Bahia - ou as regiões deste Estado mais relacionadas com sua capital Salvador - estava mudando. No âmbito do projeto mais amplo cujo nome é ´A UNESCO na Bahia 50 anos depois´, realizada em colaboração com colegas de diferentes instituições, esta pesquisa, desenvolvida no Município de S. Francisco do Conde, pretende medir o impacto da transição de uma economia simbolizada pelo açúcar para outra simbolizada pelo petróleo – ambos produtos característicos de economias e rede ´globais´. Trata-se esta de uma das comunidades pesquisadas pelo projeto e que naqueles anos foi escolhida por ser 'atrasada' - estar numa situação de pouquíssimo crescimento econômico, pouco aumento da população se comparado com outras cidades do Recôncavo, mais perto de Salvador e mais beneficiadas pelas contratações resultado das instalações da Petrobrás, como era o caso do Município de Candeias.

Um excelente estudo de comunidade sobre SFC realizado sob a orientação de Charles Wagley no âmbito do seu doutorado de antropologia pelo jovem Harry Hutchinson, que faleceu em 2003. O estudo publicado em forma de livro em 1957 e constando, numa versão resumida, no famoso livro editado por Charles Wagley Race and Class in Rural Brazil, que apresentava os resultados de seis detalhados e cuidadosos estudos de comunidade - estudos abrangentes, de cunho qualitativo assim como quantitativo, que aproveitavam de vários métodos de pesquisa, desde mapeamento de um inteiro bairro a testes psicológico baseados em imagens e fotografia para detectar o uso nativo de termos de classificação racial. Outras importantes publicações sobre a realidade do Município de SFC, foram resultado de pesquisas menos fundamentadas na etnografia, realizadas por autores prestigiosos como Milton Santos, Thales de Azevedo e Luis Costa Pinto, foram apresentadas no famoso Congresso do Petróleo de 1957 (ver De Azevedo Brandão ed. 1998). Neste Congresso foram tecidas importantes considerações sobre a rápida mudança econômica do Recôncavo decorrente da, ou sinalizada por, a instalação da Petrobrás. Naquela ocasião Luís Costa Pinto chegou a usar a expressão, parafraseando o clássico cubando de Fernando Ortiz, de contraponto baiano do açúcar e do petróleo.

A pesquisa que estou realizando a partir de marco de 2003, além de levantar fontes documentais, visa repetir, de forma atualizada, a importante pesquisa de comunidade realizada por Harry Hutchinson nos anos 1950-6. Mais tarde, em 1965, Maxine Margolis, na época aluna de doutorado no âmbito do Columbia University Summer Field Studies Program, voltou a pesquisar a grande usina Dão João no Município de SFC, produzindo um artigo (Margolis 1970) que também representa fonte de inspiração para nossa pesquisa atual.

A pesquisa enfoca as relações raciais e a forma pela quais novas identidades estão sendo criadas entre os jovens em torno de noções como ser jovem e/ou negro. Interessa-nos entender como a transição do açúcar para o petróleo, como fonte principal de riqueza direta ou indireta, afeta o processo de redefinição identitária e influência a relação das jovens generações com o trabalho, o lazer, o consumo e a sexualidade. Mais em geral, interessa-me a relação entre novas demandas de cidadania, estimuladas pela combinação entre aumento da escolaridade se comparado com a geração anterior, complemento da fase da democratização, crescente exposição a globalização (das idéias, da expectativas, das mercadorias e dos mercados) e mudanças na relações de classe, raciais e de gênero [1] .

Esta pesquisa representa um desdobramento de pesquisas realizadas em Camaçari e na Cidade Baixa de Salvador na primeira metade dos anos 90, e na comunidade do Cantagalo no Rio de Janeiro, porem também pretende preencher a lacuna que diz respeito pesquisa sobre negritude e relações raciais no Recôncavo e no interior do Estado da Bahia mais em geral . 

No coração do mundo do açúcar

O Município de S. Francisco de Conde (SFC) a cerca de 70 km por rodovia de Salvador se constitui numa das comunidades, tida pelo projeto UNESCO como representativa da região do Recôncavo, uma região que teve um papel central em toda a história da escravidão e do açúcar.

SFC, nos anos 50, era uma cidade completamente centrada na economia açucareira, altamente segmentada entre grupos populacionais associados a classes sociais que eram também grupos de status e quase estamentos. A elite local era restrita e quase que inteiramente branca. Como em outras áreas da Bahia (Harris 1966), existia uma forte correlação entre cor, tipo de trabalho, lugar de moradia e tipo de arranjo familiar. Mesmo entre os negros havia uma segmentação interna bastante acentuada, baseada no tipo de trabalho (assim carregar lenha era tida como as atividade com menos prestigio) e na rua de residência. A cor formava grupos definidos em termos de ´raça social´, como dizia Charles Wagley - era a posição social, definida em termos de posse de capital econômico, social e cultural - que, em associação com o fenótipo, definia a ´cor´ da pessoa - e os grupos de cor se constituíam em 'raça sociais'. Os espaços de lazer refletiam devidamente esta rígida segmentação da população. O Carnaval ainda nada mais era que as festas, em clubes fechados, da elite - que por meio disso criava um elo social e simbólico com a vida cultural soteropolitana. A festa do povo era celebrada durante e graça as festividades em torno do São João. Salvador, embora relativamente perto em termos geográfico, era longe, sendo o transporte sobretudo por barco. Do ponto de vista econômico, a não ser pela trocas econômicas e financeiras em torno da industria açucareira, SFC vivia uma vida bastante independente - a população se nutrindo de comida produzida localmente ou no arredores. Querendo uma definição de fácil efeito, podemos dizer que SFC, naqueles anos, era um sociedade sobretudo local, com elos com os mundos de fora, mantidos somente por uma pequena parcela da população, a elite, que segundo Hutchinson nada mais significava do que um dois porcento do total da população, que tinha ramificações sociais e familiares que chegavam até Salvador. Era sobretudo o açúcar que permitia e possibilitava a criação de redes translocais a partir de SFC.

Hoje, cinqüenta anos depois nos deparamos com uma SFC radicalmente mudada. Segundo os dados do Censo SFC tinha cerca de 11.000 habitantes em 1950 e 26.250 em 2000. Deles os brancos eram cerca de 9 % em 1950 e 8 %. em 2000.

A instalação de diferentes atividades ligadas à Petrobras (sobretudo, poços e refinarias), a partir dos anos logo depois o estudo de comunidade de Hutchinson, tem forçado uma profunda transformação do tipo de relação laborais, impondo um novo tipo de tratos inspirados por relações contratuais e introduzindo direitos trabalhistas para uma parcela importante da população que até então tinha ficado à mercê da elite açucareira - ainda que o ser 'petroleiro' se configurou muito mais como um mito de que como realidade para a grande maioria dos empregáveis que acabaram se encontrando desamparados (desempregados pelo mundo do açúcar e abandonados ou simplesmente esquecidos pelo mundo do petróleo). Mesmo que empregando de forma direta relativamente poucos homens (nota sobre memória masculinização da forca de trabalho - o açúcar, afinal, empregava, direta ou indiretamente, bastante mulheres, a Petrobras contrata, por definição, somente homens). As atividades ligadas á extração do petróleo tem significado uma arrecadação importante para as caixas do município – hoje um com a renda média pró-capita mais alta da Bahia. A migração para Salvador ou outras cidades do Sudeste dos integrantes das famílias da elite foi aumentando conjuntamente com o surgimento de uma nova elite política local, cujo crescimento está associado ao crescimento da maquina burocrática municipal – a prefeitura se torna a mais importante empregadora. A melhora da rede rodoviária torna SFC muito mais próxima de Salvador. Mercadorias assim como idéias e modas da grande cidade formam muito mais que antes parte dos horizontes simbólicos e de consumo dos moradores de SFC. Idéias, mercadorias e pessoas são mais móveis que antigamente. SFC parece ter passado da condição de comunidade segmentada por status, mas coesa socialmente, relativamente local para aquela de comunidade em rede – relativamente global.

O tipo de pesquisa

A questão principal levantada pela pesquisa é como a transição do açúcar para o petróleo e mais tarde para a prefeitura e o 'nada' afeta as expectativas e narrativas em torno do trabalho.

Logo, interessa-me como dentro deste contexto mudam praticas e discursos em torno do consumo, da festa (S. João, Carnaval, samba de roda, reggae e, de alguma forma, candomblé) e do corpo (cuidado do corpo, noções de beleza, sexualidade).

Num âmbito mais geral a pesquisa visa medir como mudaram as relações sociais, sobretudo as relações raciais, em SFC nas últimas décadas. É preciso entender como se articulam novos discursos e praticas em torno do ser negro e dos ser branco, e como mudam os ícones deste processo. Interessa-me salientar como diferentes grupos da população estão reagindo frente à crescente exposição a mercadorias, valores e idéias “ que vem de fora”, algo possibilitado pelo fato da cidade estar se inserindo em redes mais amplas; é preciso entender como esta crescente abundância de referencias contribui para rearticulação de identidades e sentidos coletivos em torno de noções como comunidade, cor ou “raça”, gênero e sexualidade (a cesta dos parceiros, o homem ideal etc.), o se sentir jovem, a posição social (entendida como uma combinação de renda e lugar no mercado de trabalho). É neste contexto, feito de redes e fontes mais complexas assim como de horizontes geograficamente mais amplos, que podemos chamar de habitus que os moradores tentam rearticular e reorganizar suas estratégias de sobrevivência. Penso poder contribuir, por meio de uma pesquisa de comunidade, ao debate sobre as conseqüências da modernidade no Brasil e sobre as formas pelas quais está mudando o processo identitário.

Neste sentido, proponho-me de:

- levantar novamente, atualizando-as, as questões levantadas há 50 anos pelo excelente estudo de comunidade de Hutchinson e pelas pesquisas de cunho mais sociológico e geográfico-econômico apresentadas no livro editado por Maria de Azevedo Brandão (1998). Nisso, é importante incorporar as considerações sobre a mudança social promovida pela industrialização e o surgimento de um novo operariado na Região Metropolitana de Salvador realizada, sobretudo, por Antonio Sérgio Guimarães, Nádia Castro e Michel Agier.

- aprofundar na pesquisa em SFC, a perspectiva e a metodologia que já experimentei numa outra pesquisa em Camaçari e na Cidade Baixa de Salvador, realizada entre 1992 e 1996 (ver, entre outros, Sansone 1992, 1993 e 1996) e no Rio de Janeiro (Sansone 2002 e 2003). Naquelas como nesta pesquisa ainda a realizar, minha preocupação está centrada na relação entre modernidade (tardia), exposição a certos aspectos da globalização e reformulação das identidades etno-juvenis. Também no caso de SFC pretendo me esforçar para por em luz com os jovens, sobretudo os jovens negros e mestiços de classe baixa, que compõem a absoluta maioria deste até relativamente rico município, estão vivenciando estas novas fases, redefinindo suas percepções das desigualdades assim como da noção de cidadania e de bem estar.

Quais são os desafios que esta abordagem mais abrangente e menos isolacionista põe?

Como pensar um estudo de comunidade hoje: como conciliar a noção de comunidade aberta com a pratica etnográfica - nos tentamos, por exemplo, acompanhar as formas pelas quais as pessoas vão cuidando do corpo, sobretudo do cabelo negro. Como chegam novas noções de beleza e de moda, como são reinterpretadas e efetivadas localmente.

É preciso colocar as relações raciais e o processo identitario entre os negros num conjunto mais amplo, cujos fatores principais são: a crise de trabalho; mudança radicais nas relações de gênero - menos filhos, famílias mais curta, amor romântico se populariza; a invenção do ser jovem; o aprofundamento da globalização das expectativas de consumo - até então a relação com a economia global era pelas redes do açúcar e do petróleo, não pelo consumo.

Os métodos a utilizar

A pesquisa, cuja duração total é de 24 meses, consta de duas partes:

Uma primeira parte subdividida em duas seções:

A. uma pesquisa documental nos arquivos da prefeitura e da Igreja Católica, assim como nos arquivos estaduais e na mídia impressa de SFC e/ou de outros municípios da região (por exemplo, Santo Amaro). Serão procuradas matérias de jornais e revistas, material iconográfico, diários e poesia e literatura popular.

B. outra seção de cunho mais quantitativo – levantamento de todo material estatístico que pode ser encontrado junto a algumas instituições. No tocante o IBGE, trata-se também de elaborar os Microdados da Amostra do Censo Demográfico 2000 que podem ser adquiridos em DVDs; levantamento de dados originais por meio questionário entre 500 moradores de diferentes localidades da cidades (após a pesquisa preliminar será definido se e como concentrar estas entrevistas em alguma regiões particularmente significativa da cidade e de sua imediata redondezas).

Nesta primeira parte eu meus assistentes tentaremos também identificar quais indivíduos e famílias foram entrevistados por Hutchinson há 50 anos. Pretendo tentar reconstruir a memória em torno da pesquisa do jovem Hutchinson.

Uma segunda parte formada por observação participante e entrevistas em profundidades com todos os integrantes de algumas famílias escolhida para representar as diferentes camadas sociais e grupos de renda da cidade. A amplitude deste grupo depende da qualidade da primeira parte da pesquisa e, obviamente, do tamanho da equipe de pesquisa que montarei.

Primeiros achados

Seguem, de forma bastante anedótica e desordenada, alguns primeiros achados.

A pesquisa tem enfocado três grupos de informantes: os ex-trabalhadores da grande usina Dão João, que chegou a empregar 1100 pessoas e que faliu barulhentamente em 1969, devendo a trabalhadores e grandes credores, mas finalmente solvendo os segundos por meio da venda do maquinário e nunca pagando os trabalhadores; os trabalhadores, aposentados e pensionistas da Petrobrás, sobretudos aqueles que entraram em serviço na década de 50 e 60, e aqueles que trabalharam no açúcar antes de se mudar para o petróleo; os membros ativos de grupos culturais (os dois terreiros de candomblé mais ´tradicionais´, ambos Angola, os grupos musicais e teatrais).

Em seguida alguns dos achados que resultam de cerca de 8 meses de pesquisa de campo e de cerca de 25 entrevistas gravadas e digitadas. As entrevistas foram realizadas no inteiro território do Município, sendo que a maioria dos ex-trabalhadores da Usina foi entrevistada nas casas do antigo núcleo habitacional na frente da Usina ou na ´aldeia´, um conjunto de casas edificado pela Prefeituras nos anos 70, para abrigar parte dos ex-moradores da vila ao redor da Usina, quando o novo dono insistiu para desalojar-los. As entrevistas com funcionários e pensionistas da Petrobrás tiveram em sua grande maioria lugar na Vila e no povoado do Monte.

Contraponto e transição

Sabemos que o açúcar foi o maior produto global até o advento do petróleo (Mintz 1985). O mesmo se aplica ao Recôncavo, uma região que se interligou com o mundo durante quatro séculos graça à rede produzida pelo mundo do açúcar. Ora, os dois produtos apresentam redes, hierarquias, culturas e processo produtores de memória muito diferentes.

Por exemplo, o açúcar tinha um tipo de ligação com o solo diferente do petróleo. O cultivo da cana requisitava um cuidado extremo com a qualidade da terra, chegando até ao culto do massapé – o tipo de terreno ideal para o cultivo, cuja qualidade determinava o preço de uma plantação. O petróleo, em vez, está ligado ao extrativismo e seus rasgos culturais. O apego é ao ‘mineral’, como falava o aposentado da Petrobrás Galinha Branca, e não ao chão. Isso, misturado à história da criação um tanto quanto autoritária da Petrobrás, dirigida pelo general Geisel nos anos da sua formação, está à origem de um certo tipo de relação, digamos assim, presentista com o meio ambiente – as instalações ligadas ao petróleo (torres, tanques, cais etc.) não somente podiam ser vistas, mas deviam estar à vista de todos. A Petrobrás, afinal, mudava e modernizava o Brasil.

Quatro séculos de açúcar, um cultivo que chegou a ocupar 90% da terra do Município, nos impõem de procurar tanto rupturas como continuidades no uso do território e nas formas sociais. Possíveis continuidades podem ser encontradas numa certa manifesta

passividade empresarial que, até na cultura popular, caracterizaria SFC, se comparada com a dinâmica Candeias e até com Santo Amaro. Segundo todos os informantes, SFC repousaria em cima do confortável colchão formado pela boa arrecadação de ICMS da qual goza a prefeitura. Realmente, percebe-se pouco comercio e pouca iniciativa privada - até os restaurantes, as duas pousadas e a maioria dos grupos culturais dependem financeiramente da Prefeitura. Afinal o único mercado (e o único cinema) do Município se encontrava no complexo da Usina Dão João. Tradicionalmente as pessoas sempre fizeram compras em S. Amaro e, nos últimos anos, em Candeias - o entreposto para Salvador. Outra característica, enraizada na relação entre donos dos engenhos e mais tarde usinas e o Município, é o absenteísmo das elites – segundo os dados do IBGE nem mesmo os fisioterapeutas e odontotecnicos residem no Município, mas vem de Salvador!

Não pode maravilhar que as pessoas de idade e os jovens tem saudades bem diferentes. Quase todos os velhos, até mesmo quem trabalhou na Petrobrás após ter trabalhado em usina ou na cana, tem saudade de uma parte do passado agrícola - do ´respeito´, da harmonia entre vizinhos e na comunidade, da ´falta de violência´, da tranqüilidade e da falta de desemprego (todo mundo tinha que trabalhar, até mesmo as crianças!) que o mundo do açúcar propiciava. Os jovens tem por assim dizer, saudade do futuro e fome de todo aquilo que eles identificam com 'moderno'.

Memória

Embora não estivesse nos planos iniciais, a pesquisa se deparou com rico material, problemas e autênticos enigmas em torno da questão da memória do açúcar e do petróleo. Aqui pretendo nada mais que mencionar alguns problemas:

poucos detalhamentos das estatísticas, por exemplo, censo agrícola e PNAD não estão detalhadas a nível de município. 

não existe qualquer arquivo digno deste nome no município, com a exceção do arquivo do Convento, que porém não é de grade relevância para esta pesquisa. O Museu da Cidade foi fechado há anos (ao que parece o material se encontra na sede do IBGE em Salvador), até mesmo o arquivo Municipal está inacessível porque, como diz o responsável, “está cheio de cobras e ratos” (é bom saber que a contabilidade da prefeitura de SFC, notoriamente pouco escrupulosa, foi sorteada para ser investigada pela Receita Federal).

Não há coleção de fotografias ou iconografia. As fotografias quem está juntando somos nos – estamos produzindo CD-roms com centenas de fotos catadas em bares, no sótão de prefeitura, em residências particulares e no terreiro de candomblé da Mãe Aurinha

Morreram os protagonistas daqueles anos 50, Hutchinson e o Sr. Durval, animador do Carnaval de SFC há décadas morreram justo em 2003.

Sabe-se que a memória tem a ver com poder (Le Goff e Halbwachs) e, neste sentido, o açúcar perde em quanto o petróleo ganha. Açúcar e petróleo, formam o mais recente contraponto na economia baiana, que já conheceu os do açúcar e do tabaco e do açúcar e da mandioca. Trata-se de um contraponto que penetra até na estrutura e narrativa do lembrar. Sendo que no açúcar se percebe quanto o (quase)analfabetismo afeta a memória, assim como a falta de imagens do passado – quadros e fotos. Aqui me lembro de Jack Goody quando explica como a escrita muda a arte de contar e a mnemônica. Na Petrobrás temos o Projeto Memória, um sindicato ativo, as celebrações na empresa, os clubes e a assistência médica e social – todos deixando documentos, atestados, fotos.

As lembrança das pessoas são poucos profundas: a memória deve ser exercitada para funcionar bem.Como nos conta Miguel Vale de Almeida (1999) na sua excelente e pormenorizadas descrição do caso de Ilhéus, a memória dos grupos culturais não chega a 30 anos.

Também S.Schwartz se queixa da pouca documentação que ficou sobre os engenhos.

Ele também se queixa que o engenho quase sempre foi relatado a partir da varanda da casa grande. O mesmo pode ser dito a respeito da pesquisa do nosso Bill Hutchinson, que, como conta dona Isabel, empregada da família Tourinho, chegou a morar na residência deles nos cottages da usina. Até então Bill é sempre lembrado em associação com a família Tourinho-Aires Junqueria: por dona Isabel, a senhora que cuida da igreja da Conceição, Nequinha Amaral e os próprios Tourinho.

Este olhar de Bill desde a varanda pode contribuir a amenizar as coisas: ele fala que o tabaco permitia acumular cash que depois era gasto com os extras, mas os ex funcionários fichados não lembram disso e acrescentam que eles nem tinham direto de ter uma bananeira – a planta mais simples. Fica a duvida se isso era possível antes da chegada do suíço e nossos informantes somente lembram da usina pós-suíço – mais dura e ‘racional’ com todos.

Na usina não havia um moderno sindicato, mas o agir do Sindicato do Açúcar, estrutura corporativista do mundo do açúcar, ao que parece sempre mais próximo dos donos que dos operários. Desta forma, não descobrimos algum arquivo do movimento sindical no mondo do açúcar baiano. Como nos diz o ex-prefeito de SFC, atual cultivador de cana, e já gerente da Usina Dão João: “ na época não precisava de sindicato, tudo se resolvia comigo mesmo, na conversa. Fazia isso tão bem que todos os operários da Usina com cédula de eleitor votaram em mim. Foi graças a eles que me elegi”. Aliás, o primeiro movimento organizado de trabalhadores da terra nesta região é o relativamente recém formado MST. Há (pobres) acampamentos do movimento na estrada que liga SFC a S.Amaro, nas terras que já pertenciam a Usina S.Elisa. Nas conversas na ´aldeia´, onde moram os velhos que trabalharam na Usina e seus descendentes, o MST é representa uma alternativa de vida, com um estilo de vida próprio. Afinal a possibilidade de mudar um contexto onde a quase todos a posse da terra sempre foi negada. O MST como válvula de escape para aqueles aos quais a terra sempre foi negada. O messianismo deste movimento deve apelar aos ex-operários da usina! Mas isso ainda não se constitui numa memória, digamos assim, solidificada como no caso do Projeto Memória para a celebração dos 50 anos da Petrobrás.

Fotografia

Passamos por uma grande mudança geracional no que diz respeito à fotografia.

Antigamente somente os ricos tinham ‘retratos’. Para os funcionários da usina a única foto era aquela da carteira de trabalho, e se tratava quase sempre de homens. Por isso que eles ficaram chocados quando a usina, logo depois de falida, jogou caixa de documentação na maré. As pessoas chegavam a ver a própria fotografia flutuando no manguezal.

Antigamente ninguém tirava retratos num matrimonio, mas este durava muito. Hoje qualquer casamento, até de pessoas de baixa renda, é amplamente fotografado e sempre mais até filmado, mas a união é de corta duração. Hoje temos fotos sim, mas elas ‘valem’, para nossa memória, bem menos que as poucas fotos do passado.

Em torno das fotos que deveria ter sido guardadas pela Secretária de Cultura e Turismo se deu uma verdadeira novela. Fomos avisado por uma informante que no bar do Rocha havia um monte de fotos, as vezes exibidas em painéis. Fomos ver e realmente achamos, muito mal acondicionadas, cerca de 250 fotos que testemunham de obra e manifestações culturais das Prefeituras anteriores. As fotos foram achadas no lixo, não sabemos se jogadas fora pela atual turma o por aquela que estava saindo da Prefeitura. Assim que foram achadas as fotos foram aproveitadas para animar o bar do Rocha. As fotos eram mostradas aos fregueses do bar que, em reconhecendo um parente ou a si mesmo, podiam tê-las ou comprá-las. Aquela mais requisitada era de um jogador do Vitória, filho de SFC – pela qual foram oferecidos 50 reais, mas Rocha não quis vender.

Elites

Quase todas as famílias que antigamente contavam, os donos de usinas e canaviais, que já faziam o belo e mau tempo em SFC, se retiraram em Salvador ou SP. Aquelas que ficaram, se modificaram bastante - morenizando-se e até enegrecendo-se (por efeito de casamentos com pessoas negras, sobretudo empregados da Petrobrás), como no caso da família Bulcão, da qual o atual prefeito (negro) faz parte, ou se mantiveram brancas por meio de casamentos com parceiros brancos de Salvador, mas tiveram que desenvolver estratégias para ser aceitos e respeitados numa cidade onde os brancos são oficialmente 8% (mas acho isso demais) e até o poder político, há pelo menos três legislaturas, não está mais as mãos dos brancos. Assim a família Peralva, ainda dona de muitíssima terra até mesmo dentro da vila de SFC, continuo sendo aceita, embora completamente branca, porque investiu na política local quando todas as outras famílias de usineiros já tinham se mudado para outra cidade.

Cultura popular, cultura negra e cultura afro-baiana

Na pesquisa a cor, algo que interessa muito no plano de pesquisa, se apresenta quase que como tema exógeno: não surge espontaneamente, nem mesmo quando se fala de cultura. Isso leva a refletir sobre o que podem ser as relações raciais e a cultura negra numa região onde os brancos são pequenina minoria. Há, nas opiniões da gente, uma quase equivalência entre cultura popular e o ser negro - ser pessoa de cor é o normal. É o ser branco que se constitui numa pequena exceção. Ora, cultura popular e cultura negra não são percebidas como equivalentes - mesmo que as expressões definidas como pertencentes á cultura popular sejam praticadas (quase que exclusivamente) por pretos e pardos, elas não são vistas por quem as praticas como eminentemente negras. O termo cultura negra tende a ser usado, sobretudo, pelos animadores culturais da Prefeitura, que provém de Salvador e que fazem da assim dita cultura afro-baiana um modelo a ser seguido – no entendimento que aquele modelo também ode ser aproveitado para aumentar o ´potencial turístico´ do município. A relação Salvador-Recôncavo, no que diz respeito a criação de uma cultura negra, precisa ser problematizada em detalhe. Até então, pode se dizer que por cultura afro-baiana entendemos na realidade cultura afro-soteropolitana.

Na última década, muito inspirados na mensagem do órgão estadual de promoção do turismo, Bahiatursa, a Prefeitura de SFC tem investido, mais anda do que qualquer outra na região, em festa. O S.João virou atração para milhares de forasteiros e no carnaval também se investiu muito, seja contratando artistas e trios elétricos da capital seja, nos últimos anos, promovendo o Carnaval Cultural - um processo de valorização dos grupos locais. Começa a se desenvolver, no discurso do poder público, a noção da 'cultura' como patrimônio a preservar. Nisso se vê a influencia forte do discurso hegemônico no PFL baiano: a Bahia como modelo de economia centrada espetacularmente no turismo e no consumo conspícuo. Marcando uma fase nova para a cultura de SFC a Prefeitura mandou produzir e distribuir centenas de camisetas com a inscrição “São Francisco do Conde capital cultural”.

Hombridade

Se a cor não surge quase nunca espontaneamente, o tema da hombridade, muitas vezes associado ao tema do respeito e da honra, aparece como central nas falas e memórias.

Os discursos e lembranças em torno do Dr. Vicente Porciuncola, antigo senhor das usinas e canaviais ao redor do povoado do Monte, parecem confirmar a importância da hombridade. Trata-se de um jogo centrado em torno da noção de respeito que une homens que podem se encontrar em posição muito diferente um do outro. Assim o Seu Cula, responsável para pesar a cana na Usina Engeho D´Agua, e o Dr. Vicente tinham uma relação onde um dava respeito ao outro. Nas memórias destas relações o caráter belicoso mas honrado do Dr. Vicente, parecem ter muito mais espaço que a diferença de classe. A cor, ademais, nunca é mencionada, e quando eu insisto em perguntar e eles respondem que os Porciuncola eram brancos legítimos, minha pergunta é achada meio fora de lugar. Em perguntando mais diretamente se havia racismo, as pessoas (todas) respondem que não: que os funcionários eram respeitados e que havia momentos de convívios entre os senhores e os funcionários - Natal e S.João. Os filhos dos funcionários recebiam presentes de Natal da família Porciuncola. E os salários nunca eram pagos com atraso, como se houvesse um compromisso entre senhores e funcionários – um compromisso altamente valorizado, a partir da situação de hoje.

E o gênero ?

Percebe-se que a instalação da Petrobrás afetou profundamente as relações de gênero, assim como elevou dramaticamente o padrão de vida dos interessados. Com relação ao mundo industrial-agrícola do açúcar, o petróleo significou uma masculinização do mercado de trabalho – na região a Petrobrás empregou somente homens. Mas a Petrobrás tanto dá (renda, assistência médica, aposentadoria) como toma (sobretudo nos primeiros anos, foram muitíssimos os infortúnios mortais na região e grupos inteiros de funcionários chegaram a se demitir por medo de se infortunar. Sobretudo, nos anos da construção das estradas e plataforma o trabalhos era de altíssima periculosidade - encontramos muitas famílias com parentes ou amigos mortos no trabalho.

Inúmeros são os relatos de como o alto salário pago a quem até então tinha trabalhado por um baixo salário, chegaram a afetar o estilo de vida, o padrão de consumo, a cesta dos parceiros e a vida (extra)conjugal.

Percebe-se uma mudança dos comportamentos sexuais e até da noção de parceiro (homem) ideal, mas ainda é forte a dupla moral - o que ele faz longe de mim pouco me interessa. Pergunto-me como o modelo homem-Petrobras - com sua esposa (a “federal”) e as outras mulheres (“sucursais”) das quais também se tomava conta - pode ter contribuído para a continuação da dupla moral.

Claro que a memória acompanha estes processos: as mulheres lembram da instalação da Petrobrás como algo que lhe permitiu se tornar dona de casa (uma figura que na Usina quase não existia em si), que garantiu uma vida mais longa e saudável aos filhos e que permitiu um padrão de consumo novo (os petroleiros foram os primeiros, entre os trabalhadores, a adquirir em SFC gêneros de consumo como TV, geladeira e carro); as mulheres lembram porém também da vida conjugal tumultuada e do marido infiel.

Em fim, a pesquisa está em pleno andamento e por enquanto nada mais se trata que de primeiras impressões. Ainda estamos na fase durante a qual o etnógrafo procura aqueles que Marvin Harris chama de 'gatilhos emicos' - as perguntas que deixam os informantes a vontade mas também tocam nas prioridades dos entrevistados. Por este caminho estamos chegando em lugares onde a cor sim é debatida, por exemplo, nos salões e entre os profissionais da beleza, para os quais cabelo, tez e formas do corpo precisam necessariamente ser verbalizados e ´operacionalizados´.


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--- 2003. Jovens e oportunidades, as mudanças na última década e as variações por cor e classe -- não se fazem mais empregadas como antigamente. In: Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle Silva orgs. Desigualdades sociais: o estado da nação. Rio de Janeiro: Topbooks. 

---- 1994. Negritude sem etnicidade, Salvador e Rio de Janeiro: EDUFBA e Pallas. 

Vale de Almeida, Miguel 1999. “Poderes, Produtos, Paixões: O Movimento Afro-Cultural numa Cidade Baiana”, Etnográfica III (1): 131-156.

Schwarz, Stuart 1995. Segredos internos, S. Paulo: Companhia das Letras

Wagley, Charles ed. 1963. Race and Class in Rural Brazil. Paris: UNESCO.

 

 

 

 

 

 

 



[1] O projeto de pesquisa "Contraponto baiano do açúcar e do petróleo" faz parte de um projeto mais amplo cujo título é "O Projeto UNESCO na Bahia: uma volta crítica ao campo 50 anos depois". Trata-se de um projeto integrado de pesquisa e formação de pesquisadores, de caráter interdisciplinar, em História e Antropologia.

a) O primeiro objetivo é reconstruir a história do projeto UNESCO na Bahia, sua organização e lugar institucional e político na academia e no Estado, suas pesquisas de campo no interior e na cidade de Salvador. Com efeito, as importantes reconstruções historiográficas deste projeto UNESCO, realizadas por Verena Stolke e Olívia Gomes da Cunha, têm deixado substancialmente de lado suas relevantes articulações na Bahia. Pelo contrário, Marcos Chor Maio (1999), num estudo pioneiro, já mostrou a centralidade da Bahia no desenvolvimento do projeto UNESCO. Foi de fato na Bahia que mais fortemente se estabeleceu uma sinergia determinante entre os planejadores de uma nova educação, o governo do Estado, a nascitura Universidade Federal, uma parte importante da intelighentzia local e uma série de grandes universidade norte-americanas (sobretudo, Columbia e Northwestern).

b) O segundo objetivo é repetir aquele modelo de pesquisa, de caráter minucioso – o estudo de comunidade , somente possível graças a uma equipe forte e entusiasta–, atualizando sua metodologia quando necessário, a fim de avaliar como e o que mudou na Bahia, e especificamente no “campo” investigado, no decorrer destas cinco décadas, em termos de relações sociais e raciais. Dentre estas mudanças observar-se-á, assim, os efeitos da modernização, da industrialização, da democratização e, em época mais recente, da exposição à globalização que se fortalece na entrada do Milênio e que anda pari passu com novas e crescentes demandas de cidadania, especialmente entre os jovens.

Desse modo “O Projeto UNESCO na Bahia: uma volta crítica ao campo 50 anos depois” pretende contribuir para o debate e a revisão do grande projeto UNESCO, sendo que se diferencia de outras releituras (sobretudo, de Verena Stolke e Olívia Gomes da Cunha), por se basear também em trabalho de campo, inclusive no que respeita a reconstrução da memória em torno do trabalho de campo e dos colaboradores do projeto UNESCO, levantando, ademais, fontes documentais esparsas.

A pesquisa deverá contemplar a cidade de Salvador, onde Thales de Azevedo pesquisou as elites de cor, e os quatro municípios do interior baiano abarcados pelo amplo projeto coordenado por Charles Wagley, entre os quais S. Francisco do Conde no recôncavo, e que resultou na publicação da UNESCO, Race and Class in Rural Brazil. A estes municípios acrescentar-se-ia, todavia, a localidade de Arembepe, no litoral norte baiano, por ser um locus de pesquisa, durante décadas, para Conrad Kottak, estabelecido, inclusive a partir do seu envolvimento com a pesquisa de Marvin Harris, no âmbito do mesmo projeto UNESCO.