![]() |
|||||
| home :: apresentação :: programação :: textos | |||||
|
Entre o Tronco e os Atabaques:
Palavras-chave: memória, negro,
museus, nação, imaginário nacional, relações raciais
Introdução: Negritude à Brasileira
As
criações dos museus afro-brasileiros em Salvador
[2]
e São Paulo
[3]
são pequenos sinais de grandes mudanças. O objetivo destes
museus é divulgar uma nova imagem do negro para o grande público. Neles
encontramos obras importantes de artistas negros e objetos considerados
de origem ou inspiração africana. Podemos compreender estes dois museus
como parte de um processo crescente de racialização da cultura brasileira
[4]
, que ocorre concomitantemente ao fortalecimento de uma
agenda pública que se volta para o combate de desigualdades raciais a partir
de políticas afirmativas.
[5]
Podemos dizer que aqueles que hoje procuram
ver-se como negros ou afro-descendentes
[6]
estão conseguindo, afinal, apoio público para não apenas
fortalecerem suas imagens na esfera pública, mas também para reescreverem
e preservarem uma outra história e imagem de nação. Para
muitos, entretanto, o fortalecimento de uma identidade negra ou afro-brasileira
é resultado de uma política equivocada, que importa o sistema de classificação
racial norte-americano, ignorando que a democracia racial e o processo de
miscigenação no Brasil não podem ser meramente identificados a falsas ideologias.
[7]
Estudos mostram que a cultura africana está presente
de forma marcante no cotidiano do brasileiro, sendo percebida a participação
tanto de brancos quanto de negros em práticas religiosas como umbanda e
candomblé. A classificação racial no Brasil, ambígua, fluida, situacional
e inconsistente, é relacionada aos índices muito maiores de casamentos inter-raciais
e áreas residenciais comuns do que aqueles presentes em países, onde as
classificações raciais são rígidas, como Estados Unidos e África do Sul
(Telles, 2003: 103-135). A crítica se fortalece com estudos acadêmicos
que apontam, ainda, que, apesar de todos os avanços feitos pelo movimento
dos direitos civis nos Estados Unidos, a identidade racial marcada é responsável
pela segregação racial, formação de guetos e perpetuação de desigualdades
sociais (Massey&Denton, 1994). Minha intenção neste trabalho é a de contribuir para este debate analisando
os conflitos e disputas que ocorrem nas diversas representações de negros
que estão presentes em alguns museus brasileiros, que, em grande parte,
são instituições oficiais responsáveis pela preservação da memória nacional.
A desconstrução das narrativas presentes nos museus é recente e caminha
em paralelo à denúncia de que construções identitárias são instrumentos
de poder. O tema das relações raciais aparece aqui, portanto, entrelaçado
ao tema da história e da constituição da memória nacional. Embora as análises realizadas no âmbito das ciências sociais pouca atenção
dêem para a influência da história, da memória e da tradição nas construções
do presente, é fundamental considerar que preservar o passado é, tanto,
selecionar eventos de acordo com as diretrizes encontradas no presente,
como, também, uma prática social, que, como qualquer outra, é condicionada
pelo processo histórico em que se insere. Assim sendo, como as construções
da memória do negro são também constituídas pelo imaginário coletivo, é
preciso considerar que as novas construções identitárias que se formam são
também influenciadas pela idéia de miscigenação ou mestiçagem, que está
na base do imaginário que constitui a nação. Precisamos considerar, portanto,
que não só o racismo, mas também os movimentos de afirmação racial se dão
“à brasileira”.
[8]
Considerando este duplo movimento inerente às formações
identitárias, a investigação aqui desenvolvida será desenvolvida em duas
etapas: inicialmente, serão analisados aqueles que têm poder na construção
das narrativas sobre o passado, que significados são lembrados e esquecidos
e qual a relação destas narrativas com práticas que levam a desigualdades
raciais, e, em seguida, a relação entre raça, memória e nação.
I. Museus Nacionais e Democracia Racial
No Brasil, poucos autores têm investigado os significados associados a
museus e monumentos e pouquíssimos são as manifestações públicas sobre as
políticas de aquisição e exposição desenvolvidas por estas instituições.
[9]
É como se acreditássemos que os museus, enquanto casas
da memória, guardassem objetos de um passado distante no tempo, cumprindo
a nobre função de preservar um passado real e uma herança que é comum ao
conjunto de cidadãos brasileiros. Entretanto, quando nos perguntamos quem são aqueles que constroem as narrativas que encontramos
na grande maioria dos museus brasileiros, descobrimos que mais de 80% destas
instituições são públicas e financiadas, em grande parte, pelo governo.
Segundo García Canclini, na América Latina, os museus fazem parte
das últimas instituições culturais a serem amplamente financiadas pelos
governos nacionais, uma vez que as demais atividades artísticas já sobrevivem
do mercado. No caso do Brasil, seu diagnóstico é correto, pois os museus
não só dependem, em grande parte, de financiamentos públicos, como ainda
cumprem a função de divulgar, para o grande público, narrativas, muitas
vezes históricas, que fazem parte do grande imaginário que constitui a identidade
da nação.
[10]
No
Brasil, a defesa de que a nação se constituiu por meio da democracia racial,
apagou diferenças étnicas e culturais importantes. Não só os brasileiros
aceitaram um discurso que eliminava identidades anteriores, como muito pouco
esforço se fez para modificar este discurso. Por sua vez, a constatação
de que as desigualdades raciais não estavam sendo resolvidas com os avanços
da modernização traz à tona a evidência de que operam no país práticas racistas,
em detrimento do discurso de democracia racial. Mas como operam as práticas
racistas se os brasileiros não se identificam em termos de raça? Procurar-se-á
mostrar aqui que a noção de democracia racial implica tanto em uma categorização
fluida, que permite que sejamos identificados racialmente em algumas situações,
e não em outras, como na inclusão hierarquizada, já denunciada nas práticas
de embranquecimento. Embora,
no Brasil, as disputas travadas em nome da preservação da memória ainda
não sejam muito comuns, observamos recentemente uma mudança desta situação,
pois diversos grupos sociais começam a se dar conta de que também têm uma
história para contar e que esta história, silenciada até então, precisa
ser construída por meio de narrativas próprias e transmitida através de
práticas e instituições sociais. Em 2003, moradores de favelas e bairros
periféricos do Rio de Janeiro reuniram-se na tentativa de que a história
de suas comunidades fosse escrita e preservada (Arruda, 2003; Oliveira,
2003). A percepção de que narrativas, práticas e instituições da memória
não são politicamente neutras faz com que cresçam as demandas para que o
poder público financie novos atores e locais da memória, capazes de satisfazer
demandas específicas. A memória deixa de ser reduzida a um patrimônio comum
de todos os cidadãos. Neste contexto, podemos compreender a atuação de novos
museus afro-brasileiros que se contrapõem às narrativas tradicionais. Nas
seções seguintes, serão investigados três aspectos que são recorrentes nas
novas propostas, mas que, surpreendentemente, não encontramos em museus
que apregoam a democracia racial como traço constituinte do povo brasileiro:
a ênfase em obras de arte de artistas negros, o resgate da importância de
objetos de origem africana, e a desvalorização de objetos e imagens do tempo
da escravidão.
O
silêncio sobre a arte, cultura e
história do negro nos museus brasileiros
“ - A mulata, para mim, é um símbolo do Brasil. Di Cavalcanti Quando
visitamos o Museu Nacional de Belas Artes ou a Biblioteca Nacional, não
encontramos nenhum tratamento separado que permita uma análise da produção
artística de negros. Ao se confrontar com obras de arte ou obras literárias,
o visitante não tem nenhuma indicação racial relativa à autoria. A coleção
Artur Ramos, por exemplo, é preservada de acordo com vários temas, mas nenhum
deles referente à negritude do autor. Da mesma forma, é possível, no Brasil,
encontrarmos estudos acadêmicos aprofundados sobre a obra de Machado de
Assis, ou sobre o papel político desempenhado por André Rebouças, sem que
qualquer indicação seja dada sobre a cor ou raça destes intelectuais. Praticamente,
não encontramos alternativas a este modelo institucional. Acervos voltados
para o fortalecimento de uma identidade racial não obtêm apoio de instituições
públicas. Abdias do Nascimento
[11]
, por exemplo, fundou, em 1968, o Museu de Arte Negra
(MAN), sem que tivesse êxito nesta iniciativa.
Ele é ainda hoje dono de uma rica coleção, constituída de sua própria
produção artística, de telas, esculturas e gravuras de artistas negros,
e de um imenso acervo documental e fotográfico sobre o movimento negro.
Apesar de carisma e poder político desta liderança do movimento negro, que
ocupa um papel único na articulação do conceito de diáspora africana, sua
coleção ainda não obteve financiamento suficiente para que pudesse ser devidamente
preservada e exposta.
[12]
Este
silêncio sobre a origem racial de artistas brasileiros pode ser explicado
a partir do imaginário nacional, ou seja, a partir da idéia de democracia
racial. Não há como não comparar esta forma de apresentar a arte àquela
encontrada nos Estados Unidos, uma vez que recentemente as políticas de
combate às desigualdades raciais desenvolvidas pelos dois países têm se
entrelaçado. Nos Estados Unidos, a preservação e valorização da arte, cultura
e história do negro foi construída em instituições que defendiam uma ruptura
com o discurso dos brancos, desde, pelo menos, as primeiras décadas do século
passado. Na
área de museus, há, atualmente, nos Estados Unidos, a Associação de Museus
Afro-Americanos (Association of African American Museums – AAAM),
que estabelece como principal responsabilidade dos museus e instituições
culturais a ela associados a preservação da América Negra. Sua missão é dar suporte para os profissionais dos museus
afro-americanos e defender melhores interpretações da arte, história e cultura
dos afro-americanos.
[13]
Também, nos Estados Unidos, em 1915, a Association for the Study of African American Life and History
(ASALH) foi fundada com a missão específica de promover, pesquisar, preservar,
interpretar e disseminar informações sobre a história e cultura do negro.
Desde então, inúmeras instituições assumiram o papel de contar a história
da população afro-americana, bem como de preservar a arte e a cultura, a
partir da perspectiva dos afro-descendentes.
[14]
Também em instituições públicas, a dimensão racial se
impõe. Um dos importantes centros de pesquisa sobre cultura negra é o Schomburg
Center for Research in Black Culture, em Nova Iorque, que é uma filial
da Biblioteca Pública de Nova Iorque (New York Public Library). O acervo
deste centro teve início em 1926. Nesta
data, a coleção pessoal de Arturo Alfonso Schomburg foi incorporada à Divisão
de Gravuras, História e Literatura Negra da Biblioteca Pública de Nova Iorque.
O Schomburg Center declara como seu objetivo o cuidado com a coleção,
preservação e pesquisa de fontes documentais relacionadas às experiências
travadas por afro-descendentes em todo o mundo. Mesmo sendo uma biblioteca
pública, esta instituição abriu espaço para que uma coleção sobre cultura
negra fosse organizada de forma separada das demais. É importante destacar, portanto, que, desde o início
do século, já eram aceitas, nos Estados Unidos, as disputas raciais desenvolvidas
no campo simbólico. Brancos e negros disputavam financiamentos
públicos e privados para constituírem seus historiadores, artistas plásticos,
e, escolherem a cultura material destinada à preservação da memória. Os
negros, ao contaram a sua própria história, em confronto com outras histórias
que se formavam da nação, contribuíram para o perfil multifacetado da nação
que se formava. Em
grande parte dos museus brasileiros, há um tratamento não racial, que, aparentemente,
valoriza igualmente a produção de brancos e negros, independentemente de
cor, raça ou origem. O silêncio sobre raça pode representar a predominância
de um imaginário coletivo, comum, capaz de se impor ao conjunto de cidadãos,
independentemente de cor, etnia ou ração. Cabe a nós, entretanto, investigar
este imaginário comum e perceber em que medida ele traz hierarquia de valores
e elege padrões estéticos e produções culturais de um segmento populacional
em detrimento de outro. O que encontramos no Museu de Belas Artes não é
apenas o silêncio sobre a natureza racial dos autores das obras de arte.
Os curadores destas coleções não só silenciam sobre a identidade de autores
negros, como também, ao longo da história, ignoram muitos deles, excluindo-os
do seleto grupo que representa a arte e intelectualidade brasileira. Além
de silenciar e excluir, o mito da democracia racial é capaz de incluir cidadãos
de forma diferenciada. Se há silêncio
sobre a contribuição do negro no Museu de Belas Artes, esta é enaltecida
em práticas populares como samba, carnaval e futebol. A autoria negra do
samba é reiterada em verso e prosa. O ideário da democracia racial reconhece
as especificidades da cultura negra, sendo que ela ocupa um lugar diferenciado,
e nem sempre prestigiado, nos museus brasileiros, lugar reservado para a
exposição da cultura da elite brasileira. O estereótipo criado de que os
negros são bons em música e esportes caminha junto com o de que eles são
ineficientes como políticos, empresários, industriais, advogados, médicos,
engenheiros e demais profissões de prestígio. Samba, carnaval e futebol fazem parte, portanto, de uma memória
da nação que não é freqüentemente reiterada nos museus, mas em práticas
populares. Ainda assim, no Museu da República, os curadores da exposição
“A Ventura Republicana”, Gisela Magalhães e Joel Rufino dos Santos, procuraram
inovar as exposições museológicas, agregando ao acervo tradicional encontrado
no museu, praticamente todo ele relacionado aos representantes das elites
políticas e econômicas, objetos que fizessem jus à contribuição dos excluídos:
indígenas, sertanejos, e o povo das ruas.
É no módulo denominado “a rua” que encontramos a frase de Gilberto
Freyre “O brasileiro é negro nas suas expressões sinceras”. A exposição
traz para dentro do museu a negritude do brasileiro que se configura no
domínio da rua em uma tentativa declarada de popularizar o discurso lá encontrado
e atrair mais público.
Africanismo
ou Brasilidade? Entre
a Amplidão da Serra Leoa e o Barulho do Corpo no Mar
“Ontem a Serra Leoa, A guerra, a caça ao leão O sono dormindo à toa Sob as tendas da amplidão... Hoje... o porão negro, fundo Infecto, apertado, imundo, Tendo a peste por jaguar... E o sono sempre cortado Pelo arranco de um finado, E o baque de um corpo no mar...”
Castro Alves
O sentimento de autenticidade que acompanha a memória não é suficiente
para atribuir veracidade a sua narrativa e, talvez por isso, seja bastante
freqüente o entrelaçamento entre história e memória nos museus nacionais.
[15]
Sabemos que se a memória
caracteriza-se por sua seletividade e descontinuidade, a história, ao contrário,
procura legitimidade através de discursos lógicos, da ordem cronológica
dos fatos, de métodos que privilegiam
precisão, e da comprovação da veracidade das fontes utilizadas. Ao contrário da memória, fluida e cheia de falhas, que é transmitida entre
gerações, a memória que encontramos nos museus é uma memória coletiva, resultado
da consolidação de diversos discursos, é uma memória que utiliza autenticidade
da cultura material e narrativas da história, procurando proporcionar continuidade
e segurança frente às inconstâncias da vida cotidiana moderna. Portanto,
quando analisamos as narrativas presentes nos museus contemporâneos, principalmente
nos museus nacionais, devemos procurar compreendê-las como expressão de
grupos sociais que procuram legitimar a sua imagem entrelaçando memória
e história em construções identitárias. As formas pelas quais os indivíduos constroem suas imagem e as relacionam
à imagem da nação são múltiplas e diferenciadas. Os diversos grupos sociais
estão constantemente negociando suas próprias memórias, histórias e tradições
com o discurso oficial da nação. Como há interesses e grupos em conflito
em uma sociedade, e cada qual tem sua própria imagem a defender, a história
que é acatada e imortalizada nas instituições oficiais da memória é resultado
de lutas pelo poder. Da mesma forma que a memória, portanto, também a escrita da história
tem sido crescentemente percebida como instrumento político. O movimento negro, ao lutar pelo reconhecimento
público do herói Zumbi do Palmares, e escolher o dia de sua morte, o 20
de novembro, para celebrá-lo, reescreveu uma nova versão da história.
Ao fazê-lo, reinterpretou o processo de libertação dos escravos,
colocando em segundo plano outros símbolos que constituíam a memória nacional:
o dia 13 de maio e a imagem da Princesa Isabel assinando a Lei Áurea. A
história necessita de seus pontos de apoio para ser divulgada e, neste sentido,
podemos compreender a importância da celebração do “Dia da Consciência Negra.”
Aqueles que celebram o 20 de novembro
sabem que estão reescrevendo a história e que esta precisa ser preservada.
A memória se perpetua de
várias formas. Ela é preservada ao ser transmitida entre gerações nos bancos
escolares: será a imagem de Zumbi, o negro rebelde que lutou pela liberdade
até a morte, e não mais a da Princesa Isabel, que ensinará às crianças a
história da escravidão no país. A memória também se perpetua em celebrações
ou rituais. Zumbi ganhou um monumento e será lembrado a cada ano. Pedra, cimento e cal constituem-se nos suportes da memória
necessários para que os homens reproduzam práticas, valores e aprendizados
do passado. A história do líder
do Quilombo dos Palmares precisa ser contada nas escolas, celebrada em feriados
e imortalizada em monumentos. É fundamental, portanto, para o debate em questão que tenhamos claro, que
as narrativas da história e da memória não se separam nem do presente, nem
de quem tem poder no presente. Passado e presente estão sempre entrelaçados,
não há memória do passado que não dependa das contingências do presente.
A história do líder do quilombo de Palmares é importante para aqueles que
lutam hoje contra práticas de discriminação racial; o resgate do passado
é sempre uma arma para aqueles que vivem no presente. A luta pela liberdade
precisa de modelos, exemplos e valores do passado que lhes sejam úteis.
É interessante perceber também que o movimento
negro não lutou apenas para que fosse criado um dia a ser celebrados pelos
negros, o movimento negro lutou para que o dia da consciência negra se tornasse
em o “Dia Nacional da Consciência Negra”, ou seja, que a data fosse
celebrada pelo conjunto de cidadãos brasileiros.
[16]
O movimento
negro, ao resgatar do esquecimento seus líderes, refaz a história da nação,
precisando enfrentar a partir daí uma reação contrária aos novos mitos trazidos
– o busto de Zumbi dos Palmares, na Praça Onze do Rio de Janeiro, por exemplo,
é recordista em pichações desde o momento que foi criado. Rejeita-se não só o herói negro, como também
a idéia de uma nação constituída por diferenças étnicas e culturais. A história é linear e contínua e ela necessita de seus marcos fundadores.
No ano 2000, um evento de grandes proporções, a “Mostra do Redescobrimento, Brasil + 500”,
[17]
celebrou o marco de origem da nação a partir da chegada
dos europeus em território brasileiro. A celebração dos 500 anos da “descoberta
do Brasil” faz parte de um conjunto de datas históricas, de que também fazem
parte a Independência, a Abolição e a Proclamação da República, todos estes
marcos constitutivos da narrativa histórica oficial da nação. A Mostra reiterava
a celebração da diversidade cultural do povo brasileiro, um dos seus trunfos
no confronto com os demais povos e nações. Apesar da amplitude temática,
que procurava incorporar todo tipo de produção artística, diversos grupos
sociais, e da aparente generosidade da proposta, ela não foi bem recebida
por todos os brasileiros. Na celebração dos 500 anos do “Descobrimento”, a história,
tanto de indígenas, quanto dos negros, que antecede a data da chegada dos
portugueses, foi abolida em prol da celebração do perfil do povo brasileiro
que se quer associar à nova nação que se constitui. O marco histórico de
fundação da nação celebrado foi o ano de 1500. Entre os mitos fundadores deste Brasil republicano está aquele que postula
a união das três raças, a partir da chegada do europeu em solo brasileiro.
Apagou-se da história dos brasileiros as heranças anteriores à chegada do
europeu, pois a nação passou a ter um ponto de partida histórico no ano
de 1500. É a partir desta data que se teria formado a nação híbrida. Frente
a esta versão oficial da história, intelectuais das mais diversas áreas
acadêmicas e ativistas denunciaram o genocídio não declarado de populações
indígenas a partir da chegada dos europeus.
[18]
É compreensível, portanto, que as iniciativas voltadas
para promover e celebrar a herança cultural africana, ou mesmo a noção de
diáspora africana, contrapõem-se a uma brasilidade constituída a partir
da escravidão, da dominação bárbara do colonizador europeu. Se a escrita
da história envolve escolhas, trata-se de uma opção entre a amplidão das
selvas africanas e o martírio que tem início com os navios negreiros. O
negro que resgata suas origens africanas nega-se a ter sua origem reduzida
à condição da escravidão. Nega também a redução ao estereótipo de brasilidade:
samba, carnaval e futebol. Os novos museus afro-brasileiros, estão, portanto,
reescrevendo a história do negro e, conseqüentemente, a história da nação,
uma vez que a anterior silenciava sobre o passado na África e sobre os movimentos
de luta e resistência no novo continente.
Embora
a influência africana esteja em toda parte no Brasil, e tenha em alguns
casos se tornado parte do ideário nacional, diversos estudos têm chamado
a atenção para as repressões sociais sobre religiões populares, fortemente
influenciadas por cultos africanos, consideradas pelas elites nacionais
como manifestações grotescas, obscenas e primitivas (Maggie, 1992; Assunção,
1995; Ferreti, 2000). Embora brancos e negros participem destes ritos religiosos,
estes são mais freqüentes juntos às camadas mais empobrecidas da população.
Ainda hoje, adeptos das religiões afro-brasileiras sentem vergonha de apresentarem-se
publicamente como devotos, o que não acontece com adeptos da religião católica,
a qual muitas vezes serve de cobertura para as práticas do terreiro. A
memória da herança africana em práticas culturais reflete esta hierarquia
de juízos e valores. Os objetos associados à África,
embora celebradas pelo imaginário nacional como parte da cultura
popular, nunca recebeu o mesmo prestígio daqueles ligados à cultura européia.
Em verdade, muitos deles são até hoje expostos como troféus nos museus da
polícia, como acontece no Rio de Janeiro.
[19]
Outros encontram-se expostos em museus associados às
irmandades católicas, pois estas, indo de encontro às autoridades católicas
da época, associaram-se muitas vezes à maçonaria e às instituições africanas,
permitindo a socialização e ascensão social de escravos. No Rio de
Janeiro, o Museu do Negro, mantido pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário
e São Benedito dos Homens Pretos, pode ser considerado o elo perdido entre
os velhos e novos museus afro-brasileiros. A Irmandade e a Igreja desempenharam
importantes papéis na campanha abolicionista e no processo que culminou
com a libertação dos escravos. O Museu, que, infelizmente, funciona precariamente
nos fundos do prédio da Irmandade, expressa esse período de lutas. O pequeno
acervo que se encontra exposto é constituído de réplica em gesso do mausoléu
da Princesa Isabel e do Conde D'Eu, peças de ferro usadas na tortura dos
escravos, bustos e quadros de antigos ídolos africanos,
como a Escrava Anastácia, Zumbi, o Escravo Desconhecido, o Escravo d'Angola
e o Cigano, instrumentos musicais como o atabaque, bem como fotos de Ruth
de Souza e outros artistas brasileiros contemporâneos. Em suma, há no pequeno museu uma mescla de
objetos que tanto reverenciam o movimento abolicionista, como mostram tentativas
precursoras de homenagem aos heróis negros e sua origem africana. Este
modelo mesclado de museu afro-brasileiro, que não traz para o primeiro plano
a ruptura com a história oficial da Abolição e do Descobrimento, pode ser
encontrado de forma mais ampliada. O Museu Afro-Brasileiro, de Sergipe,
e o Museu da Abolição - Centro de Referência da Cultura Afro-Brasileira,
de Recife, por exemplo, mostram em seu acervo - objetos dos rituais de candomblé,
pinturas de abolicionistas e troncos
da época da escravidão – que são
influenciados por ambas as tradições históricas. Em
suma, os novos museus afro-brasileiros, ao procurarem fortalecer a imagem
do negro, procuram romper com esta tradição brasileira que ou torna ilegal
os cultos de influência africana ou os cobre com o manto católico. Com isso,
constroem uma nova identidade não só para aqueles que se consideram afro-descendentes,
mas para todos os brasileiros, pois trabalham pela construção um imaginário
nacional distinto daquele que se tornou hegemônico nas instituições oficiais.
A
memória do sofrimento como instrumento de
dominação
Não
é com raiva, mas com riso que se mata. Adiante! Matemos o espírito do pesadelo.
Por ele caem todas as coisas. Friedrich
Nietzsche
Não
é por acaso que os novos museus afro-brasileiros deixam de lado os objetos
de tortura tão prestigiados nos museus tradicionais. Historiadores que investigam
o holocausto e situações traumáticas nos mostram que indivíduos traumatizados
tornam-se o sintoma de uma história que eles não possuem inteiramente.
[20]
Em caso de extremo sofrimento temos nosso ego
destruído e com ele nossa capacidade de compreensão e reação. Aqueles que
sofrem o trauma ficam presos no interior do evento, ou seja, não são capazes
de narrá-lo. O tráfico negreiro, a redução de homens a objetos, a humilhação
e a tortura reiterada durante a escravidão foram situações traumáticas que
deixaram suas marcas nos indivíduos vitimados. É como se a história ocorresse
sem testemunhas. Vítimas de experiências traumáticas mantêm comportamentos
compulsivos e auto-destrutivos ao longo de gerações, causados não pela transmissão
do que foi vivenciado, mas sim pela ausência do conhecimento da barbárie
sofrida. Os escravos, portanto, mesmo se lhes fossem
dados o papel e a pena da época, dificilmente seriam capazes de transmitir
para as gerações subseqüentes os horrores de sua experiência. Se a história
da escravidão não tem sido narrada e transmitida pelos escravos, quem são
seus autores? A
história da nação brasileira se consolidou, por um lado, a partir de um
grande silêncio sobre a dizimação de tribos indígenas, bem como sobre a
dívida social, econômica, ética e moral existente em relação ao negro liberto. Por outro, como veremos adiante, a partir da
memória reiterada dos castigos imputados aos negros escravos. Embora memória
e liberdade estejam muitas vezes associadas, pois é através da memória que
aprendemos a não repetir os erros do passado, a memória, tal qual o esquecimento,
pode servir também à manutenção da dominação. Não é difícil compreender
que a lembrança forçada de situações traumáticas de extremo sofrimento aproxima-se
da experiência da tortura. A partir da fragilidade imposta ao sofredor, repete-se infinitamente a situação de dominação. Eventos
traumáticos são esquecidos por nós porque eles vão além do que é aceitável.
Em outras palavras, aquele que vivencia uma situação traumática não a incorpora
e esta experiência não faz parte do conjunto de experiências que pode ser
transmitido para outras pessoas. A
mediação necessária para que haja conhecimento sobre estes eventos é ausente,
porque há um colapso da testemunha que é incapaz de compreender o ocorrido
no momento em que o evento acontece. Se
a experiência da escravidão foi uma experiência traumática para os negros
africanos, que direito temos nós de re-encenarmos toda a dor do passado
no presente. Quando o fazemos, qual o grau de solidariedade mantido com
os sofredores e quais os objetivos que procuramos com tal encenação? Nos
museus brasileiros, encontramos narrativas que podem ser caracterizadas
ou pelo silêncio quase absoluto sobre a participação positiva do negro na
construção da nação ou pela lembrança do período em que ele foi amarrado
ao tronco, espancado, dominado e humilhado pelo homem branco. Estas são
narrativas que não se contradizem, mas se complementam. O Museu Imperial, por exemplo, que foi criado em 1940, durante
o Estado Novo, com a proposta de recolher, ordenar e expor objetos de valor
histórico ou artístico referentes a fatos e vultos dos reinados de D. Pedro
I e, notadamente, de D. Pedro II, traz pouquíssimos indícios da presença
do negro na vida do Império. Já
o O Museu Chácara do Céu, antiga residência de Raymundo Ottoni de Castro
Maya, transformado em museu em 1972, reúne uma rica coleção de obras de
arte, entre elas desenhos e gravuras de viajantes europeus que documentaram
o Rio de Janeiro no século XIX, como Debret e Rugendas. Na página eletrônica
deste precioso Museu, encontramos duas imagens que bem representam o negro
brasileiro: escravos sendo castigados. O
Museu Histórico Nacional, instituição que procura retratar fatos e momentos
relevantes da história do país ao longo dos séculos, traz imagens do negro
que fazem com que ninguém queira com ele se identificar. Há na exposição “Colonização e Dependência”
uma
narrativa evolutiva de um processo econômico que se estende desde as grandes
navegações, comércio colonial, ciclos da cana de açúcar, do café e da mineração
até a abertura dos portos e imigração. Quando chegamos no trecho relativo
às plantações de cana de açúcar encontramos uma grande maquete de um engenho,
onde vemos negros escravos trabalhando e ao lado a figura de um negro com
uma gargalheira. Em frente às vitrines dois troncos imensos sinalizam que
negros eram colocados ali por castigo. No ambiente neutro em que são mostrados
estes objetos, eles tendem a cumprir a função de banalizar os açoites, as
chicotadas, o trabalho forçado, a separação de famílias, o aviltamento a
que foram submetidos os escravos. Um
negro, por exemplo, que entre hoje seja no Museu Imperial, seja no Museu
Histórico Nacional procurará identificar-se com os objetos e narrativas
em exposição. Considerando que um dos papéis dos museus
é conferir este sentido partilhado de pertencimento à nação, podemos concluir
que este sentimento de pertencimento é bastante diferenciado. O negro aparece
no museu subordinado ao branco e esta subordinação se reproduz no presente.
É preciso que o negro se livre
destas correntes que o aprisionam no imaginário coletivo, mas não necessariamente
esta mudança se dá a partir do esquecimento.
II. Negras Memórias, Memórias de Negros
Embora muitos sejam as análises que hoje procurem compreender as relações
raciais no Brasil, analisando processos de mestiçagem, segregação racial,
produção de desigualdades sociais com base em diferenças raciais e práticas
de discriminação, poucos dão atenção aos processos históricos e às tradições
consolidadas que são fatores essenciais para compreendermos as grandes desigualdades
raciais observadas no país. É preciso considerar que nossas práticas não
são tão livres e arbitrárias como parecem e que elas são em grande parte
constituídas por experiências acumuladas. Diferentemente do que aconteceu nos Estados Unidos,
que se constituiu a partir de uma diversidade étnica e racial, e onde profissionais
de diversas áreas se voltaram para a construção de uma história e
memória afro-americana, no Brasil, a mestiçagem e a democracia racial
têm servido de base identitária para os brasileiros desde, pelo menos, os
anos 30 do século passado. A construção do passado não é guiada apenas pelos
interesses, necessidades e preocupações do presente, pois estes são fruto
de uma cadeia de significados que entrelaça passado e presente. Ela ocorre
dentro dos limites estabelecidos por campos de significados formados ao
longo do tempo. É neste sentido que a comparação entre racismo no Brasil
e nos Estados Unidos se complica. Como
sabemos, a constatação de que a democracia racial brasileira caminha em
paralelo com a exclusão da população negra, que é
mantida fora da cadeia de privilégios e mobilidade social, começou
a ter maior repercussão a partir do projeto Unesco, na década de 50 (Maio,
2000). Ainda assim, grande parte das pesquisas realizadas naquela época
associava a manutenção de práticas racistas e desigualdades raciais aos
entraves ao desenvolvimento e modernização. Compreendeu-se a exclusão do
negro como sendo resultado de heranças escravistas e políticas abolicionistas,
incapazes de incorporar novas levas de trabalhadores livres aos processos
desenvolvimentistas.
[21]
A partir dos anos 70, encontramos, no campo
acadêmico, estudos que mostraram que o desenvolvimento econômico ampliava
a margem de desigualdade racial (Hasenbalg, 1979; Silva 1980). Práticas
de discriminação racial passaram a ser consideradas como constitutivas da
sociedade brasileira, inerentes ao discurso da democracia racial. Nas
últimas décadas, observamos o crescimento de defesas da re-africanização
ou racialização da cultura brasileira, não só entre estudos acadêmicos, mas também entre movimentos sociais e políticas públicas (Risério,
1981; Guimarães, 1999, 2002; Nascimento, 2003; Sansone, 1997, 2004).
Este movimento também pode ser compreendido como parte de processos
mais gerais. Nos últimos anos, diversos países passaram a dar mais atenção
aos movimentos de minorias étnicas e grupos sociais que reivindicam reconhecimento
e eqüidade de forma diferenciada. Se, no passado, diversidades étnicas e raciais eram
vistas como uma ameaça à estabilidade política, no presente, diversas políticas
públicas têm sido traçadas de forma a acomodar dentro de uma só nação diferentes
idiomas, currículos escolares e práticas culturais, ou seja, os estados
nacionais adotam uma postura bem mais tolerante em relação à diferença do
que no passado (Kymlicka, 2001). O direito à diferença ocorre também no
interior de uma ampla agenda por reconhecimento identitário, que envolve
demandas de mulheres, portadores de deficiência física e homossexuais. Todos
estes segmentos reivindicam plenos direitos de cidadania, a partir do reconhecimento
de identidades diferenciadas. A
esta multiplicação de identidades corresponde a multiplicação exponencial
do número de museus, a partir dos anos 80. Este fenômeno foi observado não
só em diversas partes do mundo, como também no Brasil (Santos, 2003).
Embora em ritmo mais lento, também no Brasil, movimentos
organizados denunciam a intolerância à diferença e os processos pouco democráticos
de assimilação cultural, acusando os ideais liberais de universalismo e
reivindicando políticas compensatórias. Embora seja inegável que os movimentos
pelo fortalecimento de uma identidade racial respondam a práticas de discriminação
e exclusão existentes, prevalece ainda a identidade racial múltipla e fluida
entre os diversos setores da população brasileira. Como os problemas de distribuição ocupam maior visibilidade
no cenário político, a construção de uma raça negra, ou mesmo de uma ancestralidade
africana, como alternativa à segregação, permanece restrita a setores reduzidos
da população. São muitos os que
argumentam que priorizar políticas compensatórias seria agir focalmente,
ignorando a necessidade de transformações mais radicais, como distribuição
de terras, renda, empregos, serviços públicos e oportunidades ou, ainda,
que, tendo em vista o recente crescimento do fluxo turístico, autoridades
governamentais têm interesses políticos e econômicos em demonstrações de
etnicidade e diferença. Apesar de avaliar como extremamente positivas as denúncias feitas pelo
movimento negro da existência de práticas racistas na sociedade brasileira,
pois sabemos que elas são inerentes à idéia de democracia racial, gostaria
de destacar que uma identidade afro-brasileira ou negra não será criada
em detrimento de experiências passadas, sejam elas positivas ou negativas.
A recente adoção do governo brasileiro de políticas compensatórias e afirmativas
de combate às desigualdades raciais em escolas e serviços públicos ocorre
sem que seja observada uma identificação substantiva por parte da população
com as novas construções de negras ou afro-americanas, o que pode ser explicado
pela fluidez identitária em seu aspecto positivo. Por outro lado, a resistência
do movimento negro em perceber que a imensa concentração de renda nas mãos dos 10% mais ricos da população
[22]
é um fator de desigualdade racial, pois não oferece oportunidades
de mobilidade social para a maior parte da população negra, pode ser explicada
pela rigidez do sistema de hierarquias que é mantido no interior do regime
democrático de governo. Quero dizer com isso, que, embora necessário, o reconhecimento de pluralidades
étnicas e raciais não pode ser considerado como o único caminho garantidor
do fim de práticas racistas excludentes. Considerando que o processo que
leva a desigualdades raciais tem diversas causas, é preciso considerar que,
no Brasil, a luta pelo fortalecimento da identidade negra deve lutar não
só pelo fim da discriminação racial e pela inclusão racial, mas também pela
preservação e avanço de processos que envolvem a tolerância inter-racial,
bem como por questões de distribuição de renda e poder, que têm se concentrado
nas mãos de poucos em detrimento dos regimes democráticos estabelecidos. Mas há aqui aspecto importante relativo à memória que merece ser ressaltado.
As representações ou construções identitárias que fazemos do passado muitas
vezes trazem sentidos que não são totalmente apreendidos por nós. As memórias
e narrativas sobre o passado podem ser responsáveis por práticas de exclusão
e discriminação, sem que sejam identificadas como tal. Quero dizer com isso
que não somos totalmente livres para reconstruir nosso passado, e que o
fazemos dentro dos limites possíveis, isto é, a partir de condições dadas
pela própria história. Algumas
das novas construções identitárias que estão sendo forjadas, de certa forma,
expressam esta situação, pois se há uma identidade étnica ou racial formulada
nas exposições, elas também procuram delinear um perfil identitário com
o qual parte da população seja capaz de se identificar. Em 2001, comemorando
o dia de Zumbi dos Palmares, foi inaugurada pelo Ministério da Cultura,
no Museu Histórico Nacional, a exposição temporária “Para Nunca Esquecer:
Negras Memórias, Memórias de Negros”. Emanoel
Araújo, o curador, foi responsável por uma síntese entre o que é habitualmente
mostrado na história oficial da nação, a negra memória da escravidão,
com a exposição de objetos de castigo, contratos de compra e venda de escravos,
e outros signos do sofrimento e humilhação do negro, e o que se procura
mostrar nos novos movimentos e museus afro-brasileiros, a memória do
negro, isto é, os quilombos, a resistência do negro à escravidão e as
origens africanas da produção cultural do negro. Poemas, pinturas, retratos
foram selecionadas para mostrar a participação do negro na vida cultural,
social e política brasileira. É interessante observar que a construção
da imagem do negro neste caso parte da memória nacional existente, a negra
memória, que, como vimos anteriormente, reitera o sofrimento do escravo
fragilizando a imagem do negro. Mas, talvez, aceitar abertamente as mazelas
do passado, para, rindo dele, partir para um melhor futuro, seja o melhor
caminho a ser defendido na construção de uma nova identidade.
Bibliografia: Abreu, Regina. 1996. A Fabricação
do Imortal. Rio de Janeiro: LAPA: Rocco. Arruda, Júlio Mourão. 2003. “Lembranças e Esquecimentos: A Construção Social
da Memória.” Dissertação de mestrado. UNIRIO. Assunção, Mathias Röhrig. 1995. “Popular culture and regional society in nineteenth-century Maranhão,
Brazil.” In: Bulletin of Latin American Research, vol. 14, n.º 3,
pp. 265-286. Bourdieu, Pierre. & Wacquant, Loïc. 2002. “Sobre as Artimanhas da
Razão Imperialista”, Estudos Afro-Asiáticos, ano 24, no. 1, pp. 15-35. Caruth, Cathy (ed.). 1995. Trauma:
Explorations in Memory. Baltimore & London: The John Hopkins University
Press. Caruth,
Cathy. 1996. Unclaimed Experience.
Baltimore & London: The John Hopkins University Press. Carvalho, José Murilo. 1999.
“O Encobrimento do Brasil”. FolhaOnLine www1.uol.com.br/fol/brasil500. Evans, Jessica, and David Boswell. 1999. Representing
the nation : a reader : histories, heritage and museums. London New York: Routledge. Ferretti. Sergio F. 2000. “Diversidade religiosa, integração e conflito
no Maranhão.” Trabalho apresentado na XXIIª Reunião Brasileira de Antropologia
(ABA), Brasília, mímeo. García Canclini, Nestor. 1990. Culturas
híbridas : estrategias para entrar y salir de la modernidad. México,
D.F.: Grijalbo : Consejo Nacional para la Cultura y las Artes. Gillis,
John R. 1994. Commemorations : the
politics of national identity. Princeton, N.J.: Princeton University
Press. Gonçalves, Reginaldo Santos. 1996. A
Retórica da Perda. Rio de Janeiro: UFRJ: IPHAN. Guimarães, Antônio S. (1999): Racismo
e Anti-Racismo no Brasil. R. Janeiro, S. Paulo, Ed. 34. Guimarães, Antonio S. (2002): Raças,
classes e democracia. R. Janeiro, S. Paulo, Ed. 34 Guimarães,
Manoel Luis Salgado. Nação e civilização nos trópicos: o IHGB e o projeto
de uma história nacional. In. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, n.1, 1988.
p.5-27 Hasenbalg, Carlos. 1979. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil.
RJ: Graal. Heringer, Rosana. 2003. Ação afirmativa e combate às desigualdades raciais
no Brasil: O desafio da prática. In Sociedade & políticas: Novos
debates entre Ongs e universidade:211-222. Rio de Janeiro: Editora Revan.
Kymlicka, Will. Politics in the Vernacular: Nationalism, Multiculturalism,
Citizenship. Oxford Press, 2001. LaCapra, Dominick. 1994. Representing the Holocaust: History, Theory,
Trauma. Ithaca: Cornell University Press. Maggie, Yvonne. 1992. Medo do feitiço: Relações entre magia e poder
no Brasil. Rio de Janeiro, Arquivo Nacional. Maio, Marcos C. 2000. "O projeto UNESCO: Ciências Sociais e 'credo
racial brasileiro'". S. Paulo, Revista
da USP, no. 46 Massey, Douglas S. and Nancy A. Denton. 1993. American apartheid : Segregation
and the making of the underclass. Cambridge, Mass.: Harvard University
Press. Nascimento, Elisa Larkin. 2003. O sortilégio da cor: Identidade, raça
e gênero no brasil. São Paulo: Selo Negro. Nora, Pierre. 1984. Les lieux de mémoire. Bibliothèque illustrée des histoires.
Paris: Gallimard. Oliveira, Adolfo Samyn Nobre.2003. “Cerzindo a Rede da Memória: Estudo
sobre a Construção de Identidades no Bairro da Maré 2003”, Dissertação de
mestrado. UNIRIO. Poulot, Dominique. 1997.
Musée, nation, patrimoine, 1789-1815.
Paris: Gallimard. Risério. Antonio.
Carnaval Ijexa Notas Sobre Afoxés e blocos do novo carnaval afrobaiano
(Salvador, Corrupio, 1981). Sansone, Livio. 1997.
The new politics of black culture in bahia, Brazil. In The politics of
ethnic consciousness, ed. Cora e Hans Vermuellen Govers. New York: St
Martin's Press. Santos, Myrian
Sepúlveda. 2000.
Os museus brasileiros e a constituição do imaginário nacional. Revista
Sociedade e Estado, XV, no. 2: 271-302. Santos, Myrian
Sepúlveda. 2003.
“Megaeventos, museus e globalização”. Interseções Revista de Estudos
Interdisciplinares 5, no. 1: 29-56. Savage, Kirk. “The Politics of Memory; Black Emancipation and
the Civil War Monument,” in John Gillis, ed., Commemorations: The Politics of
National Identity. Silva, Nelson do Valle. 1980. “O preço da cor: diferenciais raciais na
distribuição de renda no Brasil”. Pesquisa e Planejamento Econômico,
10 (1): 21-44. Telles, Edward. 2003. Racismo à Brasileira: Uma Nova Perspectiva Sociológica.
Rio de Janeiro: RelumeduMará. Williams, Daryle.
2001. Culture Wars in Brazil: The First Vargas Regime, 1930-1945.
Durham, NC: Duke University Press. Wood,
Nancy. 1999. Vectors of Memory: Legacies of Trauma in Postwar Europe.
Oxford & New York: Berg.
[1]
Agradeço a José Neves Bittencourt, Mario Chagas,
Elisa Larkin Nascimento e Luiz Henrique Sombra, respectivamente diretor do Centro de Referência
Luso-Brasileiro do MHN, pesquisador do Museu da República, curadora da
coleção de Abdias de Nascimento e fotógrafo das exposições aqui analisadas,
pela ajuda no acesso às exposições e pelas informações que tanto me auxiliaram
na interpretação das mesmas.
[2]
Em 7 de janeiro de 1982, foi inaugurado o Museu
Afro-Brasileiro (MAFRO), em Salvador, a partir do Programa de Cooperação
cultural entre o Brasil e países da África, e através de um convênio firmado
entre os Ministérios das Relações Exteriores e da Educação e Cultura,
Governo da Bahia, Prefeitura de Salvador e Universidade Federal da Bahia.
O acervo do Museu é composto de peças da cultura material de origem ou
inspiração africana e de objetos de origem brasileira, relacionados à
religião afro-brasileira na Bahia. O objetivo da instituição é ser um
espaço de referência para ações de afirmação identitária.
[3]
Em
20 de junho de 2003, Dia Nacional da Consciência Negra, foi oficialmente
inaugurado, no Pavilhão Manuel da Nóbrega, no Parque do Ibirapuera, o
Museu Afro-Brasil, com o apoio dos governos estadual e municipal de São
Paulo. O Museu terá como curador Emanoel Araújo, artista, pesquisador,
e muitíssimo prestigiado por seu desempenho anterior como diretor da Pinacoteca
do Estado. Segundo Araújo, o museu terá como objetivo preservar a memória
do negro, tornando-se um espaço de inclusão social, um centro cultural
de história, reflexão e auto-estima (Estadão, 21/11/2003).
[4]
O termo raça aqui utilizado indica uma construção
social e não diferenças biológicas ou culturais sedimentadas.
[5]
Para um levantamento, nos últimos anos, de um conjunto de medidas de combate às desigualdades
raciais, que incluem políticas de ação afirmativa desenvolvidas pelo governo
brasileiro, na tentativa de solucionar a desigualdade socioeconômica existente
entre indivíduos de diferentes origens étnicas e raciais, ver Heringer,
2003.
[6]
Embora outras denominações pudessem ser utilizadas,
as denominações “negro” e “afro-descendente” serão utilizadas prioritariamente,
seguindo a orientação assumida pelo movimento negro, que classifica a
população brasileira em brancos e negros ou afro-descendentes (exceto
indígenas e aqueles oriundos de países asiáticos), com o objetivo de minimizar
a rejeição à negritude, e, rebater a hierarquia entre pardos e pretos.
Como apontado por diversos autores, esta classificação é assumida por
parcela pequena da população, que majoritariamente ainda se auto-classifica
segundo um espectro de cores e traços fisionômicos (Telles, 2003: 103-136).
Podemos dizer, entretanto, que a categoria negro tem sido crescentemente
utilizada pela população brasileira em situações em que é evidente a associação
entre a construção de uma identidade própria a reivindicações políticas
e sociais.
[7]
Ver, por exemplo, a crítica de Bourdieu &
Wacquant sobre a imposição da dicotomia racial branco/negro norte-americana
sobre a percepção existente entre brasileiros de um contínuo de cor (Bourdieu
& Wacquant, 2002).
[8]
Em “Racismo à Brasileira”, Edward Telles traça
uma instigante abordagem ao racismo, diagnosticando a ocorrência de uma
segregação racial no Brasil, a
partir de análise demográfica, trabalho etnográfico e teoria política
(Telles, 2003).
[9]
Embora
seja crescente o número de estudos que analisam as relações de poder inerentes
às representações de diversos setores da população em monumentos, museus
e outras instituições culturais associadas às construções dos Estados
Nacionais (Gillis, 1994; Savage, 1994; Poulot, 1997; Evans, 1999), no
Brasil, ainda são poucos os estudos que trabalham estes temas (Abreu,
1996; Gonçalves, 1996; Santos, 2000; William, 2001).
[10]
Para uma análise do perfil dos museus brasileiros,
ver Santos, 2003.
[11]
Abdias do Nascimento, nascido em 14 de março
de 1914, Franca, São Paulo, foi fundador da Frente Negra Brasileira, em
1931, criador do Teatro Experimental do Negro, em 1944, formou gerações
de artistas negros, organizou a Convenção Nacional do Negro, em 1945,
a Conferência Nacional do Negro, em 1949, o Primeiro Congresso do Negro
Brasileiro, em 1950, fundou o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, Deputado
Federal, em 1983, e Senador da República, em
1997. Professor Emérito da Universidade do Estado de Nova Iorque,
em Buffalo, e Doutor Honoris Causa pela Universidade do Estado do Rio
de Janeiro e pela Universidade Federal da Bahia. É artista renomado, pintor
de mais de 60 telas e autor da peça teatral Sortilégio.
[12]
As várias tentativas e fracassos de expor a coleção
foram detalhadamente narradas por Elisa Larkin Nascimento, mulher de Abdias
e curadora da coleção, também membro do Instituto de Pesquisas e Estudos
Afro-Brasileiros (IPEAFRO), em entrevista concedida em dezembro de 2003. Atualmente a coleção conta com um financiamento
da Fundação Ford para que as telas sejam restauradas e parte da documentação
digitalizada.
[13]
Há
hoje nos Estados Unidos inúmeros museus, casas históricas, centros de
pesquisa e páginas eletrônicas importantes que têm por objetivo preservar
a história da comunidade negra ou afro-americana. Entre eles, Association
of African American Museums, Baltimore, MD; African-American Civil War Memoria, Washington,
DC; Amistad Research Center, Tulane University,
New Orleans, LA; Anacostia Museum, Smithsonian Institution,
Washington, DC; Birmingham Civil Rights Institute, Birmingham,
AL; Booker T. Washington Monument, Tuskegee, AL;
Boston
African American National Historic Site; California African
American Museum, Los Angeles, CA; Chattanooga African American Museum , Chattanooga,
TN; The Delta Blues Museum , Clarksdale, MS; The
Frederick Douglas Museum & Cultural Center, Rochester,
NY; Frederick
Douglass National Historic Site, Washington, DC; Hampton
University Museum, Hampton, VA; King-Tisdell
Cottage, Savanah, GA; Mary McLeod Bethune Council House National Historic Site,
Washington, DC; Museum of African American History, Detroit,
MI; Museum
of Afro American History, Boston, MA; National
Civil Right Museum, Memphis, TN; National
Underground Rail Road Museum, Maysville, KT; River Road
African American Museum, Gonzales, LA; Schomburg
Center for Research in Black Culture, New York, NY.
[14]
Não só o Brasil, mas todos os Estados Nacionais
precisaram de seus mitos de origem e de alegorias próprias para forjarem
uma unidade, constituírem-se como grupo e distinguirem-se dos demais.
A escrita da história nacional durante o período do Império contou com
o importante papel desempenhado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
(IHGB). Fundado em 1838, este Instituto reescreveu a história do Brasil
a partir do pacto formado nas elites políticas e intelectuais, combatendo
as diversas frentes separatistas de setores da sociedade brasileira (Guimarães,
1988). Durante este período, nem negros, nem indígenas foram considerados
parte do projeto civilizatório.
[15]
Para Pierre Nora, por exemplo, enquanto a história
estaria associada a narrativas lógicas e lineares, as memórias resultariam
de testemunhos vivos e lembranças transmitidas entre gerações (Nora, 1984).
[16]
A
comemoração da morte de Zumbi como Dia Nacional da Consciência Negra teve
início em 1978, a partir da iniciativa do Movimento Negro Unificado (MNU),
organização política contra a discriminação racial que tem origem nos
anos 70 e se fortalece na década seguinte. Em 1996, a Câmara de Vereadores do Rio
de Janeiro aprovou uma lei que decretava feriado no dia 20 de novembro.
[17]
Instalada no Parque do Ibirapuera, em São
Paulo, esta mostra, considerada a maior exposição de arte já montada no
Brasil, pois reuniu 15 mil obras de arte, recebeu o público recorde de
1,8 milhões de pessoas.
[18]
Conforme denunciada pelo historiador
José Murilo de Carvalho, a palavra "descobrimento"
implica dizer que os 50 milhões de habitantes que viviam nas Américas,
em 1492, só tinham passado a ter existência real após a chegada dos europeus.
Implica ainda dar um tom falsamente neutro a um processo que foi um inegável
genocídio, já denunciado na época por Las Casas em seu famoso libelo “A
Destruição das Índias Ocidentais”. Ainda, segundo o autor, “se as palavras
não são para encobrir as coisas, só há uma expressão para descrever o
que se passou desde 1500: conquista com genocídio dos índios, seguida
de colonização com escravidão africana. Daí viemos, em cima disso foram
construídos os alicerces de nossa sociedade. Descobrir o Brasil hoje é
tirar o véu que o ‘descobrimento’ lança sobre este lado inescapável de
nossa herança. Algum chato poderá mesmo perguntar porque não se aproveita
o ímpeto celebratório para uma ação de impacto em benefício dos que pagaram
a conta desses 500 anos” (Carvalho, 1999).
[19]
Os
Códigos Penais de 1890, de 1932 e de 1942 incriminavam participantes de
diversos ritos religiosos africanos por os considerarem charlatões. Segundo
Maggie (1992: 47), o Código Penal de 1942, retira a categoria espiritismo,
mas aponta os participantes da macumba e do candomblé como perigosos e
criminosos. Esses artigos continuam inalterados até o Código, mais recente,
de 1985. Segundo, ainda, Ferreti (2000), na Bahia os terreiros de candomblé
só foram liberados de pagar taxa à polícia em 1976 e, em São Luís, os
toques de tambor de mina foram liberados do controle policial somente
em 1988, em função das comemorações do centenário da abolição da escravatura
e devido a interesses turísticos e culturais
[20]
Sobre a relação entre história e trauma, ver,
entre outros, LaCapra 1994; Caruth 1995 e 1996; Wood 1999.
[21]
Embora alguns movimentos de
ativistas negros já estivessem presentes nesta época, denunciando as formas
de opressão a que negros eram submetidos (Silva, 2003), estes movimentos
ainda não tinham força suficiente para modificarem a agenda política do
país.
[22]
No relatório do Banco Mundial, 2000, o Brasil
aparece como o terceiro país a apresentar maior concentração de renda
(Índice Gini).
|
|||||